quinta-feira, 3 de maio de 2012


 Companhia Paranaense de Colonização Espéria:
Italianos da gema na fronteira oeste.

Parte 2

           Em 1912 foi extinta a Colônia Militar de Foz do Iguaçu, passando a região a integrar o território de Guarapuava. Já a criação do município de Foz do Iguaçu ocorreu em 1914, pela Lei Estadual nº. 383, no território onde anteriormente existia a referida Colônia Militar.
           A bem da verdade deve ser dito que as benesses governamentais começaram ainda no alvorecer do século XX com a promulgação do Decreto nº 4, de 16 de março de 1901. Esse dispositivo permitiu ao governo paranaense alienar enormes extensões de terras devolutas, situadas nos vales dos rios Piquiri, Paraná e Iguaçu, entregando-as aos obrageros ingleses e argentinos.
           Tais concessões encontravam respaldo na Constituição Federal de 1891, a qual em seu artigo 64 explicitava que os estados podiam gerir autonomamente em seus territórios sobre minas e terras devolutas. O caminho estava aberto para as negociações e negociatas que viriam acontecer nos anos seguintes.
           Deu no que deu. O governo Estadual fez concessões ou simplesmente vendeu enormes glebas de terras a baixos preços, sem levar em conta a nacionalidade do comprador.
           A condição imposta pelos mandatários do poder executivo paranaense para os ervateiros atuar na região era de no mínimo dar início a algum núcleo de povoamento e a construção de picadas, geralmente ligando os portos situados no médio e alto curso do rio Paraná em direção a algum ponto no interior das florestas. O povoamento da região estava em pauta, mas era quase que letra morta.

No entanto, a Constituição de 1891, no artigo 2 discrimina as terras públicas de responsabilidade da esfera Federal: “Caberia á união somente a porção do território  que for indispensável para as defesas das fronteiras, fortificações, construções militares e estradas de ferro federais” (Constituição de 1891). Desta forma, ficam inventariadas as terras de domínio Federal e as de competência Estadual. Assim, o governo paranaense, em conformidade com a Lei Estadual de nº 68, de 20 de dezembro de 1892, e, combinado com o Decreto Estadual 1-A, de 08 de abril de 1893, passam a iniciar os trabalhos de cadastramento das terras devolutas existentes em seu território, sobretudo as situadas em regiões cobertas por florestas no interior com objetivos explícitos de iniciar a colonização oficial e/ou empresarial em regiões despovoadas do interior paranaense (YOKOO, 2011, p.2).

           Impõe-se salientar um aspecto importante nessa questão tão abrangente, que é das concessões de terras devolutas (devolvidas). Acontece que o governo estadual no período posterior à Proclamação da República não possuía recursos financeiros para dotar as regiões fronteiriças de qualquer infraestrutura mínima necessária. Não tinha dinheiro para a execução das obras públicas indispensáveis (estradas, ferrovias, pontes, etc.), mas tinha grandes áreas de terras. E terra é e era dinheiro em caixa. O governo achava que ganhava com o negócio, mas os obrageros ganhavam mais, pois com a exploração predatória das nossas reservas vegetais, ricas e abundantes, garantiam enormes lucros.
           E a nossa floresta tropical e subtropical estava repleta de pinheiros, cedro, cabriúva, ipê rosa, amarelo, óleo pardo, entre outros de menor valor comercial. Isso tudo sem contar que haviam pontos densamente ocupados por ervais nativos.
           E muita gente se interessou nas terras devolutas disponíveis – leia-se empresas estrangeiras. Das obrages legais, ou seja, das mais de uma dezena que adquiriram terras do governo paranaense, incluíam-se as de Domingos Barthe, Nuñez y Gibaja, Julio Tomás Alica, Compañia de Maderas del Alto Paraná, Petry e Meyer & Azambuja, dentre outras.
           Pois é, o Oeste paranaense era mesmo um mundo de obrages e obrageros. E teria continuado assim se não fosse seu território caminho e pouso para as tropas revolucionárias paulistas e gaúchas em 1924/1925. Contingente militar que mais tarde, unido, ficou conhecido mundialmente como “Coluna Prestes”. Isso foi após sua extraordinária peregrinação, concluída em 1927 na Bolívia, tendo percorrido mais de 30 mil quilômetros.
           Passou a Coluna com grande repercussão e no ar o alerta de abandono da região. Alerta feito e ouvido pelos mandatários advindos com a chamada Revolução de 1930. Com Getúlio Vargas, gaúchos no poder. Pregou-se a nacionalização da fronteira, insistiu-se na “Marcha para o Oeste”, falou-se de povoamento efetivo e na criação de colônias e loteamentos. No final das contas muito se disse e muito pouco se fez durante a década de 1930 até meados da seguinte. Nesse intervalo temporal a Segunda Guerra Mundial e suas repercussões.
           Seria injusto dizer que o governo Vargas foi omisso quanto à presença obragera no Oeste do Paraná. Na verdade não foi.

Getúlio Vargas, logo após assumir o governo, pela Revolução de 1930, com amplo apoio dos militares, muitos deles tendo participado nos combates à Coluna Prestes e outros do movimento tenentista, conhecendo a situação das fronteiras brasileiras no Oeste do Paraná, assinou o Decreto 19.842, de 12 de dezembro de 1930, que adotava medidas drásticas do ponto de vista nacionalista. Este decreto exigia que as empresas tivessem, em seus quadros de empregados, no mínimo, dois terços de trabalhadores brasileiros (SPERANÇA, 1992, p.194), dificultando o ingresso e a permanência de estrangeiros, no caso paraguaios e argentinos, nas terras brasileiras e impondo novas dificuldades às empresas estrangeiras (GREGORY, 2002, p.91).


      No Paraná, o interventor General Mário Alves Monteiro Tourinho (1871-1964), nascido em Antonina e revolucionário de primeira hora, foi colocado à testa do governo estadual por Getúlio. Como interventor federal resolveu tomar medidas imediatas no sentido de “nacionalizar” a fronteira oeste.

           Mário Tourinho ficou no poder menos de um ano, sendo substituído em 1931 por Manoel Ribas, o famoso Maneco Facão, que permaneceu no comando das coisas paranaenses até 1945. E a saída repentina do general Tourinho deu-se principalmente em razão do mesmo ter mandado baixar, sem a anuência do poderoso Getúlio Vargas, o tão famoso Decreto nº. 300, o qual procurava sanar a problemática questão envolvendo a concessão de terras no Oeste do Paraná.

[...] este decreto [...] retirava de forma drástica gigantescas extensões de terras eu haviam sido tituladas a grupos econômicos, inclusive estrangeiros, envolvidos sobretudo na construção da estrada de ferro São Paulo - Rio Grande (WACHOWICZ, 1982, p.145).
          
           Retomadas as terras desviadas, por força do Decreto 300, o interventor Mario Tourinho editou o Decreto 800, estabelecendo que doravante as áreas consideradas devolutas só pudessem ser adquiridas a título de compra “pelos que nela se comprometessem a morar a estabelecer cultura efetiva”. Pelo mesmo Decreto 800, o interventor define a colonização como processo básico de acesso à terra,que passaria a ser executado pelo próprio Estado e em parceria iniciativa privada (SERRA, 2009, p.5)
           Nos anos anteriores à revolução, tentando timidamente fomentar o povoamento, o governo estadual autorizou a entrada de algumas companhias de colonização estrangeiras. Estavam instaladas legalmente desde a década de 1920. Exemplo disso foi a Companhia Paranaense de Colonização Espéria Ltda., presente na região de Santa Helena desde o ano de 1926.
           Todavia, a movimentação fundiária que levou a Companhia Espéria adquirir suas glebas de terras remonta alguns anos antes, senão vejamos.
           Pelas Leis nº 1.147, de 26 de março de 1912, e pela Lei nº 1642, de 05 de maio de 1916, o Governo do Estado do Paraná garantiu a título de concessão a José Petry, Hans Meyer, Alberto Meyer e Antonio Bittencourt de Azambuja, 50.000 hectares de terras devolutas para cada um ao preço de 4$500 o hectare. Essas terras estavam localizadas próximas nas proximidades da atual cidade de Santa Helena.
           Esses empresários se articulam rapidamente – se é que não haviam se reunido antes, o que é bem provável - e semanas depois criam a empresa Petry, Meyer & Azambuja, apoiados em empréstimos feitos junto ao Banco Francês-Italiano (WACHOWICZ, 1987, p. 156).

Deste modo, esta sociedade recebe do governo o título provisório das terras de forma unificada em 200.000 hectares. Em 27 de abril de 1920 é admitido na sociedade o cidadão Roberto Stüber, que incorpora aos domínios territoriais da sociedade de mais 50.000 hectares, concessão de terras para colonização, adquirida do governo paranaense. Assim, a empresa passa a controlar 246.100 hectares, já deduzida a faixa de terrenos de domínio da marinha à margem do rio Paraná. Desse modo, com a entrada do novo sócio é alterada a razão social da empresa que passa a denominar: Meyer, Annes & Cia, com sede em Curitiba (WACHOWICZ, 1987, p. 160).

              A área foi então demarcada e subdividida em 628 lotes, medindo cada um deles em torno de 25 hectares. A área total para fins de colonização foi de 15.700 hectares.
           Feito isso o passo seguinte foi no sentido de arregimentar diversos corretores de terras e iniciar a comercialização desses lotes. A preferência foi dada para colonos de origem italiana e descendentes radicados no interior de São Paulo. Gente que estava descontente com os resquícios do sistema de parceria ainda vigentes naquele Estado.
Continua ...

sexta-feira, 20 de abril de 2012


Companhia Espéria:
Italianada da gema na fronteira oeste.

Parte 1

           Francesco Cinecatti nascido e criado na região do Vêneto, Província de Treviso, nordeste da Itália, era o caçula de cinco irmãos, todos homens. O pai Antoni era um modestíssimo agricultor que aos quarenta e oito anos já estava cansado de lutar contra a maré da vida cotidiana. Um belo dia cansou de vez, somou as economias e resolveu deixar a Itália. Ali não via mais futuro para si e para os seus. Pesava também o fato de que não se acertava com os fascistas de Benito Mussolini, encastelados no poder desde 1922.
           Com o passar dos meses cresceu a vontade de emigrar. Vem daqui, vem de lá, conversa com um, conversa com outro e decidiu vir para o Brasil, arriscar a sorte. O destino era uma das grandes fazendas cafeeiras em São Paulo. Em maio de 1932 desembarcou no porto de Santos – malas e a família. Deixou para trás parentes, amigos e fascistas empedernidos. Francesco tinha na época dez anos.
           Do litoral Antoni subiu a Serra do Mar com destino a São Paulo capital. A idéia era ficar em São Paulo mesmo, mas na primeira visita que fez ao Consulado Italiano foi abordado por um home bem trajado, o qual se identificou como corretor de terras de certa companhia de colonização de nome Espéria, empresa da qual nunca ouvira falar. Mas sabe como é que é, companhia italiana, vendedor italiano, caiu na conversa. Tutti buona gente! Dias depois pegou estrada com destino ao Oeste do Paraná.
           A título de informação Esperia era o nome da península itálica na antiguidade e também o nome de uma comuna italiana na região do Lácio, província de Fronsinone.
           O corretor tivera sucesso na estratégia em vender-lhe a idéia de que estava sendo construída uma pequena Itália num lugar onde já moravam várias famílias de conterrâneos seus. Era mais que uma proposta de negócio, era quase um apelo sentimental. Gente simples como ele que lutando e prosperando em terras de boa qualidade, com clima ameno e, melhor ainda, com baixo preço.
           Muitos italianos estavam indo para a Argentina, mas o corretor desaconselhava, afirmando categórico que por lá qualquer pedaço de terra custava os olhos da cara, o clima não ajudava pois fazia um frio de rachar e, para arrematar, asseverava que as autoridades alfandegárias portenhas eram absolutamente intransigentes em relação aos imigrantes italianos que por lá chegavam. No Paraná seria tudo diferente.
           Em solo paranaense a primeira parada de Antoni foi em Guaíra, cidadezinha controlada pela Matte Laranjeira. Dali, no trem e pelos trilhos da empresa uma curta viagem de 60 quilômetros até Porto Mendes. Pernoite e embarque no vapor Cruz de Malta com destino ao Porto Sol de Maio, em Santa Helena, sede paranaense da Companhia Espéria.
           Desembarcado, Antoni ficou surpreso com as boas instalações que encontrou no porto de Sol de Maio. Chamou-lhe atenção o intermitente vai e vem de pessoas no local. Constatou contente que italiano da gema não faltava. Pois é, o corretor não havia lhe mentido. Pelo menos nisso.
           Hospedou-se provisoriamente com a família num modesto barracão da companhia e no dia seguinte, em suas andanças de reconhecimento pelo lugar levando Francesco a tiracolo, se deparou com uma bem montada serraria, voltada ao beneficiamento de parte da madeira que a Espéria retirava em sua concessão. As tábuas eram usadas na construção das moradias, barracões, chiqueiros, estábulos e cercas na própria colônia. No entanto, a maior parte – falamos em toras brutas - seguia para a Argentina em marombas, que eram uma espécie de um grande assoalho gradeado feito com as próprias toras amarradas umas às outras.
           Constatou também a existência de uma olaria e de um descascador de arroz. Além desses sobressaía-se uma pequena usina para o aproveitamento da cana de açúcar que era cultivada nas redondezas - empreendimento esse que nunca não chegaria entrar em operação. Foi completamente abandonado quando o governo federal desapropriou as terras da Espéria em 1934, desarticulando seu empreendimento.
           Mas a coisa não acabava por aí. Como não poderia deixar de ser a Companhia Espéria havia montado um bem sortido armazém com a função de fornecer gêneros de abastecimento diversos. É claro que com esse “secos e molhados” veio junto o sistema de contas correntes, as tão conhecidas cadernetas onde os colonos podiam comprar fiado e a preços aviltantes as mercadorias que necessitavam para a sua subsistência cotidiana. Algumas vezes saldavam suas dívidas a dinheiro – o que era raro. Geralmente transacionavam com os poucos produtos excedentes oriundos de suas lavouras.
           Para manter seus estoques em dia o armazém supria suas necessidades com mercadorias que vinham da Argentina e de São Paulo via rio Paraná, mesmo porque, excetuando-se Foz do Iguaçu e Guaíra – e olha lá! -, não existia no Oeste paranaense nenhum centro urbano com a mínima estrutura. Sob esse aspecto, as coisas somente começaram a ganhar ânimo a partir do final da década de 1940, quando se intensificou a migração para a região com a vinda de milhares de famílias de colonos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Como a grande maioria dos colonos [...] não possuía recursos financeiros para pagá-los de imediato, abrigava-se a sujeitar-se às condições que eram propostas estabelecidas pela Espéria. Como os lucros obtidos com a venda de produtos excedentes não eram significativos e os gastos no armazém da companhia se davam de forma constante, o endividamento se prolongava e tendia a crescer com o passar do tempo, acentuando sua dependência (COLODEL, 1988, p. 202).

           Além da colonada italiana Antoni não deixou de reparar em outro pessoal. Haviam outros trabalhadores a serviço da Espéria. Informou-se e descobriu que eram os mensus paraguaios, contratados para o corte da madeira, para o plantio de cana de açúcar e em outras atividades braçais. Ressalte-se que o sistema de exploração ao qual estavam acorrentados esses mensus em nada diferia ao praticado na demais obrages espelhadas pela Região Oeste do Paraná [1].
           Encarado sob a perspectiva do distanciamento temporal o Oeste paranaense, no  agora longínquo ano de 1933, parecia ser um mundo a parte, quase uma Shangri-la!  Distante dos grandes centros decisórios estaduais e nacionais quase não chamava atenção, a não ser pelo fato de ser região fronteiriça com a Argentina e Paraguai.
           Problemas fronteiriços maiores entre as nações do Cone Sul pareciam superados. Nos meios diplomáticos a Argentina havia sido derrotada pela farta documentação e argúcia do Barão do Rio Branco na tão famosa “Questão de Palmas” ou “Missiones”, como insistiam nossos vizinhos do Prata. A decisão em prol dos interesses brasileiros – o nosso uti possidetis - saiu em 1892, arbitrada pelo presidente Glover Cleveland, dos Estados Unidos. Quanto ao Paraguai esse era mantido nos eixos desde o término da Guerra do Paraguai (1865-1870), quando teve sua população e economia destrocada pelos exércitos da Tríplice Aliança.
           Então tudo bem. Bem? Não muito.
          As fronteiras estavam estabilizadas, mas nestas terras brasileiras quem dominava mesmo eram os interesses econômicos argentinos. Concessões legais e invasões ilícitas lhes garantiam o acesso predatório às nossas imensas e inexploradas reservas nativas de erva-mate e de madeira. Com punho de ferro os obrageros controlavam milhares de mensus paraguaios em suas obrages – mão de obra tratada brutalmente, quase servil. Também mantinham a tiracolo a navegação no Rio Paraná, principal via de acesso à região e caminho natural por onde escoavam nossas riquezas vegetais.
           Presença humana brasileira mesmo era raridade; militar ou civil. A Colônia Militar da Foz do Iguaçu, criada em 1889, lutava para sobreviver. Os colonos estabelecidos em suas cercanias podiam ser contados nos dedos. Oeste adentro nem pensar! Isolamento estratégico, premeditado. Com o passar dos anos o Oeste paranaense seria um mundo de obrages e obrageros, e o Governo do Paraná forneceu todo o instrumental legal para tal.

... Continua


[1] A etimologia da palavra região (regio), [...] e as suas fronteiras (fines) não passam do vestígio apagado do acto de autoridade que consiste em circunscrever a região, o território (que também se diz finis) legitima, conhecida e reconhecida, das fronteiras e do território, em suma, o princípio da divisão legítima do mundo social. Este acto de autoridade de direito que consiste em afirmar com autoridade uma verdade que tem força de lei é um acto de conhecimento, o qual, por estar firmado, como todo o poder simbólico, no reconhecimento, produz a existência daquilo que enuncia (BOURDIEU, 1999, p.114).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


Quando o patrimônio histórico é vítima
de pretensa modernidade!...

... ou uma nova história construída com tijolos à vista.

Prédio do Fórum passando por "restauração".
     Na semana passada voltava para casa pela Avenida Paraná e ao passar defronte ao prédio que abrigou por muitos anos o Fórum da Comarca de Santa Helena deparei-me com algo que me chamou atenção e, confesso, me deixou consternado: a cena de operários trabalhando a todo vapor sob o sol quente de final de tarde. O que vi era um sobe e desce de gente derrubando paredes, retirando janelas, arrancando portas, quebrando telhados, etc. 
     Vi também a ferida maior que se abria com a destruição da grande e soberana parede de pedra em tom amarelo. Era nela que se lia em imponentes caracteres feitos em aço: “Fórum da Comarca de Santa Helena”.
    Fiquei ali parado por alguns minutos, chocado enquanto cidadão, estupefato e atônito enquanto historiador! Em minha frente descortinava-se o antigo prédio do Fórum, uma das primeiras e mais importantes obras públicas da cidade de Santa Helena, construído inaugurado em 1975 e conferindo um novo status ao jovem município.
Prédio do antigo Fórum, construído em 1975.
Ali, diante de mim a carcaça em agonia. Outro patrimônio histórico* do Município de Santa Helena que sofria com a descabida e unilateral intervenção da prefeitura municipal - responsável direta pela sua custódia e proteção enquanto bem público.
 Infelizmente a cena, embora desagradável, era repetitiva. História que se reavivava como tragédia. Antes do Fórum os alvos predados foram antigo prédio que abrigava a prefeitura e o Cine Remonti, só para ficarmos nos exemplos mais pungentes. Ressalte-se que a Câmara de Vereadores também sofreu com as mexidas “modernistas” que recebeu durante a década de 1990.
Antigo prédio da Prefeitura Municipal.
      Agora chegou a vez do prédio do Fórum. Qual moribundo respira em agonia a mais recente vítima da faina desenfreada de um projeto impensado de substituição do que é caracterizado como velho - e daí entendido como inútil – por algo que é julgado como moderno, portanto necessário. Lamentável processo de desconstrução da história à base de marretadas, picaretadas e picaretagens.
     Há bem da verdade que se diga que já há alguns anos o vetusto prédio encontrava-se quase que em completo abandono, após a construção do Fórum que está hoje sediado na comercial Avenida Brasil. Já o antigo Fórum, “velhinho”, serviu durante algum tempo para isso, outro tempo para aquilo e no frigir dos ovos acabou “encostado”, pois a ele não se encontrou utilidade – ou não se procurou verdadeiramente.
Instalações atuais da Prefeitura Municipal
       Fico pensando cá com meus botões: que bom seria se ele abrigasse em prédio próprio a nossa biblioteca pública! Depois de restaurado é claro! Mas são raríssimos aqueles que integram a classe política que valorizam e investem na cultura, mesmo porque parece não haver interesse em dar um maior acesso cultural ao cidadão. Cultura gera consciência, discernimento sobre o que é certo ou errado e aí é que reside o problema.
            Nada contra os profissionais que estão executando a obra - pedreiros e carpinteiros. Também que fique absolutamente claro: não discuto a utilidade e funcionalidade futuras a serem dadas ao prédio do Fórum. Elas podem ser nobres, bem intencionadas, mas não vêm ao caso neste momento. Discuto e questiono a maneira como está sendo tratado o nosso já dilapidado patrimônio histórico.
     Então, como a lei não permite a demolição pura e simples do patrimônio público, o negócio é estuprá-lo sem mais ou menos. Essa parece ser a política cultural vigente em Santa Helena! Sem pedir ou ouvir a opinião de ninguém se decide pôr abaixo o que a geração presente herdou de legado cultural das gerações passadas.
     E assim, no lugar da história passada erguem-se paredes feitas com tijolos à vista. Construções sem alma ou afeto, talvez de acordo com o íntimo de seus autores.
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*A definição mais antiga e tradicional de patrimônio histórico referia-se ao patrimônio material, que engloba construções, obeliscos, esculturas, acervos documentais e museológicos, além e outros itens das belas-artes. Atualmente temos o chamado patrimônio imaterial, que abrange regiões, paisagens, comidas e bebidas típicas, danças, manifestações religiosas e festividades tradicionais. 


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012


As alturas não me perturbam, não se preocupe!
O dia que Santos Dumont desafiou a morte e criou o Parque Nacional do Iguaçu!


     Verão de 1916. O mundo encontra-se em transe. Na Europa a fina flor da juventude é sistematicamente imolada nas trincheiras e nos sangrentos campos de batalha da Primeira Grande Guerra. É somente o segundo ano do horrendo conflito, que se prolongará incontrolável até 1918, quando ceifará milhões de vidas e redefinirá o panorama político mundial.
Alberto Santos Dumont (1873 -1932)
     Convenhamos, para matar, o homem não mediu esforços durante milênios. Genialidade e criatividade enveredam pelos caminhos da destruição premeditada e dentre os novos equipamentos militares usados pelos exércitos em guerra destaca-se a invenção do aeroplano. O avião revela-se aos olhos do mundo como uma revolucionária e mortífera arma, para desgosto de seu inventor.
     Distante, mas atento a esses trágicos acontecimentos europeus um homem: Alberto Santos Dumont. Desiludido  com os rumos tomados pelo seu invento percorre o Brasil em viagem de férias. Anos mais tarde, em 1932, cada vez mais atormentado e depressivo cometerá suicídio em sua casa em Guarujá. Uma perda para a humanidade.
    Chegando ao Oeste paranaense Santos Dumont resolve se hospedar num confortável hotel existente em Puerto Aguirre, à margem do rio Iguaçu, no lado Argentino. O porto em questão fora construído em 1901 pela empresa madeireira Vitória Aguirre e tem a finalidade de facilitar o desembarque de turistas que desejassem visitar os Saltos de Santa Maria. Para tanto, do porto até os saltos foi aberta uma boa estrada de rodagem.
Santos Dumont, um mês antes do suicídio, em 1932.
       A bem da verdade vale dizer que foram os argentinos os primeiros a vislumbrarem as inegáveis possibilidades turísticas das cataratas. Já no final do século XIX faziam propaganda dos saltos Europa afora, atraindo os primeiros turistas. Funcionou tão bem o merchandising castelhano que já no início da década de 1920 se falava em temporada de turismo nas cataratas do Iguaçu! Dá para acreditar!
      Informados da ilustre visita, os poucos brasileiros residentes na vila de Foz do Iguaçu formam comitiva e convidam Santos Dumont a hospedar-se em terras brasileiras. O pioneiro aeronauta aceita de pronto e acomoda-se onde é hoje o Hotel das Cataratas. O local escolhido fora construído por Frederico Engel, em 1915. Além desse, o alemão também era dono do Hotel Brasil, o primeiro de Foz, também de 1915.
      Ao ser levado às cataratas, Santos Dumont não se contém diante de tamanha magnitude e beleza oferecidas pela natureza. Com arrojo que lhe era próprio subiu num tronco caído e fica longo tempo contemplando o cenário, empoleirado no mirante improvisado, diretamente do salto Floriano, enquanto a comitiva prende a respiração preocupada, na expectativa do tombo eminente e da morte certa.
       Num dado momento questiona a quem pertenciam as terras vizinhas e é informado que são de um argentino chamado Dom Jesus Val. Na verdade, dizem, ele  é o proprietário das Cataratas do Iguaçu, lado brasileiro! Tudo legal, pois lhe foi concedido o lote número 9 da ex-colônia militar de Foz do Iguaçu.
       Indignado, Santos Dumont, num arroubo nacionalista, resolve intervir. Dias depois decide viajar até Curitiba, via Guarapuava, em lombo de animal. Na Capital vai imediatamente ao encontro do Presidente do Estado, Afonso Alves de Camargo, e apela veementemente. Valeu a pena! Em 28 de julho de 1916 é baixado o Decreto nº. 653, o qual declara de utilidade pública o lote número 9 e ainda os 1.008 hectares na margem direita do Iguaçu, junto às cataratas de Santa Maria, com o objetivo de ali instalar-se futuramente um parque e povoação.
       A respeito da área escolhida e que se tornaria a base territorial do Parque Nacional do Iguaçu, algumas informações.
          Historicamente, durante a primeira metade do século XVII, ela foi cenário das missões jesuítas para a catequese dos Tupi-Guaranis, posteriormente os  bandeirantes paulistas expulsaram os jesuítas espanhóis, permanecendo assim sob o domínio de Portugal toda a região.
Santos Dumont quando de sua visita a Curitiba.
À esquerda Afonso Alves de Camargo.
          André Rebouças, engenheiro do Império, já em 1876 sugeriu a criação de um  Parque Nacional que contemplasse desde as Sete Quedas do Paraná até as Cataratas do Iguaçu, abrigando uma grande e importante área de florestas do Oeste paranaense.
           Em 1930, um outro decreto estadual ampliou a área desapropriada e repassou-a ao governo federal com o objetivo expresso de transformá-la em Parque Nacional. Baseado neste decreto o presidente Getúlio Vargas, em 1939, criou o Parque Nacional do Iguaçu, com 3.300 hectares – o parque argentino já havia sido criado em 1934. Porém, em 1944 o parque foi ampliado, abrangendo praticamente os limites atuais, os quais foram estabelecidos em definitivo pelo Decreto nº. 86.676, em dezembro de 1981.
          Em novembro de 1986 O Parque Nacional do Iguaçu foi  incluído pela Unesco na "lista dos Patrimônios Naturais da Humanidade".
          E pensar que tudo começou com uma pergunta banal!