quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Rio Paraná: caminho de pessoas, mercadorias e idéias.

  Para o Oeste paranaense o Rio Paraná, antes do aparecimento do Lago de Itaipu, foi, dentre outros, o meio físico condutor de todo um processo de natureza histórica que se confunde com a própria história da ocupação, povoamento e colonização modernos na região.
O Rio Paraná, seus portos de embarques e seus vapores.
[O rio Paraná] é um rio totalmente político. Os seus formadores separam: o primeiro, o Estado de Minas Gerais do de Goyaz e o segundo, o grande Estado montanhêz do prospero Estado de São Paulo, formando ambos o rico triangulo mineiro (FIGUEIREDO, 1937. p.121).

[...] a importancia que o [rio] Paraná exerce na historia da America, se perde nas noites do tempo. Era por êle que os castelhanos subiam na ancia louca da ambição, em busca de castelos doirados dos Incas. Ainda por êle desciam os masculos bandeirantes paulistas, á cata do ouro fascinante de Cuiabá, baixando o Tietê e subindo o Pardo (Id. p.124)
     
       Tal constatação é fácil de ser aquilatada quando do manuseio das fontes documentais que dizem respeito à história da Região Oeste.
Construção de jangada em Porto Mendes. A madeira retirada do Oeste paranaense seguia pelo rio Paraná em direção às províncias de Corrientes e Missiones, em território argentino.
       Os moradores mais antigos que na região chegaram às primeiras décadas do século XX são unânimes em longos relatos sobre o rio Paraná, sobre o majestoso “Paranazão”. Para eles ele era parte integrante do dia a dia. Vale dizer que muitos deles chegaram ao Oeste paranaense via Paranazão, usando-se de vapores argentinos e paraguaios.
         Durante dezenas de anos foi a artéria de comunicação mais importante existente na região, numa conjuntura em que as estradas praticamente inexistiam ou não passavam de simples picadas abertas rudimentarmente e que raramente ofereciam condições razoáveis de trânsito. Uma pesquisa rápida no material cartográfico da época mostra imediatamente a precariedade da malha viária da região nas primeiras décadas do século XX.
     O rio Paraná era um caminho natural de locomoção por onde trafegavam pessoas, mercadorias e idéias. Nas suas barrancas estruturaram-se dezenas de portos fluviais em ambas as margens, seja em território brasileiro ou paraguaio.
    No lado brasileiro, no início do século XX existiam os seguintes portos no Alto Paraná, a partir de Foz do Iguaçu, em direção a Porto Mendes: Foz do Iguaçu, Bela Vista, Sol de Maio, Santa Helena, Jejuí, Porto Felicidade, Porto Britânia, Porto Rio Branco, São Francisco, Porto Artaza e Porto Mendes.
    Na maioria desses portos em função das barrancas do rio Paraná serem muito íngremes, com mais de cinqüenta metros, o embarque e desembarque de passageiros e mercadorias era feito por meio de zorras movidas a vapor, tração animal ou mesmo usando braços humanos.
     Fronteira natural entre o Brasil e o Paraguai o rio Paraná não impediu que a Região Oeste fosse objeto dos interesses comerciais de capitalistas argentinos. Ao contrário, contribuiu.
    Oriundos preferencialmente das províncias de Corrientes e Missiones os obrageros argentinos montaram no Brasil verdadeiros impérios destinados à exploração da erva-mate e da madeira. Para isso, desde o final do século XIX, com a anuência ou não do governo imperial brasileiro, adquiriram vastíssimas concessões de terras de onde retiraram imensas quantidades dessas riquezas vegetais.

Portos de Corrientes e Posadas.
     Retiradas dos sertões eram transportadas até as margens do rio Paraná e dali, por meio de vapores, balsas ou jangadas, eram encaminhadas até o território argentino, onde eram beneficiadas.
     Nessas gigantescas concessões de terras transpôs-se para o Oeste paranaense todo um modus vivendi socioeconômico característico e que ficou conhecido como obrages, sendo os seus proprietários chamados de obrageros.
Mensu paraguaio na recolha da erva-mate.
     Enquanto os capitalistas argentinos entraram com a “propriedade da terra”, a mão de obra destinada à sua exploração era proveniente do Paraguai. Eram os chamados mensus - trabalhadores manuais que aqui aportavam carregando como mudança expectativas de trabalho e dinheiro. Sonho esse que rapidamente se desfazia na dura realidade do trabalho quase escravo das obrages.

A compreensão do universo de vida desses indivíduos somente ganha contornos mais nítidos se, antes de tudo, entendermos como foram organizados os vastíssimos domínios rurais que se estabeleceram em quase todo o oeste paranaense e sul do Mato Grosso, e que eram conhecidas como ‘obrages’ (COLODEL, 1992, p.129).


      Durante o longo período em que se explorou a erva-mate e a madeira no Oeste do Paraná, por intermédio das obrages, quase a totalidade da mão de obra arregimentada para a execução dessas atividades era composta por trabalhadores paraguaios. Eram os chamados guaranis modernos: mensus ou peões. A designação era dada aos indivíduos que se propunham trabalhar braçalmente numa obrage. O termo equivale-se ao peão, sendo que o seu trabalho era pago mensalmente, ou pelo menos sua conta era assim movimentada. Se procurarmos a raiz etimológica dessa expressão, veremos que ela vem do espanhol: mensual, ou seja, mensalista.
      Não nos aprofundaremos em todas as particularidades inerentes no sistema de exploração/coerção representado pelas obrages. Diremos apenas que elas dificilmente lograriam sobreviver por tão longo período de tempo - cerca de meio século - ou nem mesmo assumiriam as características que assumiram caso não houvesse o rio Paraná.
Obrageros e erva-mate.
      Torna-se fácil explicarmos a presença das obrages, cujas atividades eram praticamente desconhecidas durante o final do Império e os primeiros anos da República Velha, sem levarmos em consideração que todo o Oeste paranaense ficara praticamente abandonado pelas autoridades governamentais brasileiras. Região de fronteira, despovoada em grande parte, somente mereceria um pouco atenção quando da fundação da Colônia Militar de Foz do Iguaçu, em 1889. É dessa época a vinda dos primeiros colonos brasileiros para a região.

      Mesmo após a chamada Revolução de 1930 a situação de abandono em que se encontrava a região permanecia praticamente inalterada para aqueles que percorriam a região, vindos de outras paragens.
          
O oéste paranaense tem dois pontos de atração do seu comercio: Guarapuava, que regula as transações com o litoral e Foz do Iguassú, que faz o intercambio pelo rio Paraná.
Por Guarapuava se exporta o mate, o pinho, o gado, o porco e alguns cereais; por Foz do Iguassú, somente mate e madeira.
Foz do Iguassú consome grande quantidade de produtos argentinos e paraguaios, que entram no Brasil, em sua grande maioria, pela porta larga do contrabando (FIGUEIREDO, 1937. p. 85).

A cidade [Foz do Iguaçu] possue um porto servido por uma rampa muito bem construída, que nasce numa extensa praia de arêia amarela. O Porto fica num remanso, onde os redemoinhos, girando com excessiva velocidade, entravam de certo modo a atracação. Defronte do nosso porto ha o paraguaio Porto Franco, aberto recentemente por uma companhia de extração de madeiras.
O gerente da companhia, senhor MATTEUDA, informou-me ter conseguido exportar 1.000 vigas mensais.
Parece-me que o regime de trabalho adotado na tal companhia é o da escravatura (Id. p. 86).  

      Não se pode negar que a passagem da famosa Coluna Prestes em terras paranaenses, em 1924/25, serviu como um alerta aos governos paranaense e brasileiro, a partir do momento em que a imprensa escrita começou a denunciar o estado de abandono em que se encontrava toda a região.
      Entretanto, somente com a Revolução de 1930, é que a Região Oeste começou a ser o alvo da atenção do governo federal. Aconteceu quando Getúlio Vargas iniciou o seu programa político-ocupacional denominado Marcha para o Oeste, com a consequente nacionalização da região, através de um povoamento mais organizado e cassação das concessões de terras antes em mãos argentinas e paraguaias.
     Nessas marchas e contramarchas, permaneceu o rio Paraná como o suporte logístico de maior importância. Desde o último quartel do século XIX suas margens estavam em constante agitação com o surgimento de mais de duas dezenas de portos. Os núcleos de povoamento que foram aparecendo no interior dependiam quase que exclusivamente do rio Paraná para a sua sobrevivência. Criou-se entre a população oestina e o rio Paraná um relacionamento cultural extremamente forte e duradouro.
Sistema de zorras. Cargas e passageiros desciam e subiam pela barranca íngreme e perigosa.
No atracadouro improvisado o vapor aguarda.
     Tal relacionamento logrou perdurar até o momento em que a rede viária atingiu certa magnitude e começou a arcar com as tarefas de transporte e comunicação.
     Deve-se destacar que o desenvolvimento e proliferação da malha de estradas carroçáveis não aconteceu de maneira rápida e uniforme. Mesmo após o início da década de 1940, quando novos fluxos de colonos redescobriram o Sudoeste e o Oeste paranaense e se fixaram de maneira mais intensa, o número de estradas nessas regiões era ridiculamente pequeno e essas se apresentavam em péssimas condições de uso. Eram flagrantes as dificuldades com que as levas migratórias se deparavam para chegar à região através das raríssimas vias terrestres existentes. Depoimentos orais colhidos com personagens que aqui chegaram nessa época são fartos e unânimes nesse aspecto. A nossa principal via terrestre de comunicação, a BR-277, somente foi asfaltada em meados da década de 1960!
Vapor atracado no rio Paraná, acompanhado de duas balsas.
     A navegação a vapor no rio Paraná, no trecho compreendido entre Porto Mendes e Foz do Iguaçu, recebeu um duro golpe quando o governo revolucionário de 1930 resolveu nacionalizar a região de fronteiras. As grandes extensões de terras, antes sob o controle de capitalistas argentinos voltaram ao domínio do brasileiro, que procurou repassá-las a empresários nacionais que tivessem interesse em colonizar a região, através de empresas legalmente constituídas.
     Não tendo mais aqui suas obrages, os empresários argentino pouco a pouco foram desativando suas empresas de navegação a vapor, já que não tinham mais o monopólio da extração da erva-mate e da madeira.
     Tão grande era a influência argentina e paraguaia nesta região que uma das primeiras medidas tomadas pelo governo revolucionário de Vargas foi a de obrigar o uso da língua portuguesa nas escolas e repartições públicas em atividade no Oeste paranaense, já que se falava quase que exclusivamente o castelhano e o guarani! Isso sem falar que dentro das obrages o pagamento dos mensus, quando era feito, e isso era raro, era através de um dinheiro próprio, mandado emitir pelos próprios obrageros!
      Pode parecer, e isso não é verdade, que com a saída dos obrageros o rio Paraná perdeu por completo sua importância dentro do contexto socioeconômico regional. Longe disso.
    As populações aqui estabelecidas continuaram mantendo estreitos laços com aquela artéria navegável até o momento de seu desaparecimento, com a formação do reservatório da Hidroelétrica de Itaipu Binacional, em 1982.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COLODEL, José Augusto. Matelândia: história & contexto.  Cascavel : Assoeste, 1992.

FIGUEIREDO, Lima. Oéste Paranaense. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937. p.121.

terça-feira, 25 de junho de 2013

OESTE PARANAENSE
CONJUNTURA POLÍTICA, FUNDIÁRIA, 
COLONIZATÓRIA ENFIM

Parte Final

Jose´Augusto Colodel

                
             A primeira delas ocorreu já no final de 1930 quando o governo fez publicar em 12 de dezembro o Decreto nº 19.482, que ficou conhecido como a “lei dos dois terços”. Por esse dispositivo legal ficou proibido pelo período de um ano o ingresso de estrangeiros no território nacional, além de exigir que as empresas mantivessem m seus quadros de funcionários um mínimo de dois terços de trabalhadores nacionais. Duro golpe para as obrages, cuja mão de obra era composta na sua totalidade de trabalhadores paraguaios – os mensus.
           Não parou por aí. No ano de 1932 foi criada pelo governo federal, via Ministério da Guerra, a Companhia Isolada de Foz do Iguaçu. Essa guarnição tinha como missão coibir o contrabando, fornecer guarda avançada à soberania nacional e oferecer apoio logístico às futuras operações visando à futura demarcação e consolidação da região aos interesses do são-borjense Getúlio Vargas.
           Em 1937 Getúlio promulgou uma nova Constituição sob a égide do Estado Novo. Impõe-se a ditadura. Soberano em suas decisões, Getúlio investiu com renovado ânimo na criação do Território Federal do Iguaçu e do de Ponta Porã, localizado no este e sul do Mato Grosso. Para tanto, fez incluir na Constituição Federal um dispositivo que proibia os estados a concessão de terras numa faixa de fronteira de cento e cinqüenta quilômetros sem que houvesse a concordância do Conselho Superior de Segurança Nacional. Também não era permitida a abertura de estradas. Essas medidas tinham a clara intenção de frear as iniciativas paranaenses – também catarinenses e mato-grossenses - no sentido de promover a colonização em sua porção mais ocidental. A área estava, à letra miúda, fadada aos interesses da União – leia-se aos interesses de Getúlio. Não demorou muito tempo e seis anos mais tarde, em 1943, foi finalmente criado o Território Federal do Iguaçu.
           A área total do futuro território era de quarenta e sete mil quilômetros quadrados, sendo que dois terços da mesma estavam ainda inteiramente desocupados. Censos apontam que em 1940 residiam na área apenas três mil e seiscentas famílias, conseqüência direta da presença das obrages por mais de meio século na região.
           A criação do território foi uma decisão arbitrária, foi efêmero em sua existência, mas, queira-se ou não, lançou as bases que possibilitariam o efetivo povoamento da Região Oeste durante os vinte anos seguintes.
           Compreenda-se que as possibilidades da iniciativa de capitalistas gaúchos e catarinenses em encetar seu projeto de colonização privada em terras paranaenses eram bem concretas e não passaram despercebidas pelas autoridades paranaenses, uma vez que, de acordo com Gregory (2000, p.117), “havia, também no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, experiências de sucesso empresarial e de desenvolvimento de colônias que, certamente, se expandiriam para as terras florestais a Oeste”.
           Extinto o Território Federal do Iguaçu, o Estado do Paraná não ficou de braços cruzados à espera de possíveis mutilações ou perda de autoridade política dentro de seus domínios. A experiência do Território Federal do Iguaçu ainda calava fundo. As autoridades paranaenses, agindo no interesse de consolidar sua presença na região e gerenciar questão da imigração e colonização criaram a Fundação Paranaense de Imigração e Colonização em 1947 e também o Departamento Administrativo do Oeste em 1948, o qual foi transformado mais tarde no Departamento de Fronteira, ligado diretamente ao palácio Iguaçu. Uma nova fase foi inaugurada, cabendo ao Estado do Paraná o papel de controlar e gerenciar a política colonizatória. Política esta por ele definida e seguida mediante dispositivos legais de sua autoria. O estado via-se como um agente disciplinador, transformador e modernizador, cujo objetivo maior, como foi o caso do Oeste do Paraná, era o de promover a integração desta região sob a égide uma renovada política populacional e territorial (Gregory, 2000).
           O marco dessa fase intermediária, durante a vigência do Território Federal do Iguaçu, onde a iniciativa privada ainda não se coadunava integralmente com os interesses reguladores do Estado do Paraná na política colonizatória, foi a aquisição, em 1946, pela empresa Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná (MARIPÁ) de uma antiga obrage, a Fazenda Britânia, com a finalidade de assentamento de colonos gaúchos. Dividida a área, foi loteada e colocada à venda aos migrantes interessados. Contudo, antes de promover a venda dos lotes aos colonos a Maripá tinha o direito contratual de retirar a madeira que lhe interessava e que era exportada para a Argentina via rio Paraná. De acordo com Peris (2002, p.77), “ao fazer parcerias com outras empresas para serrar a madeira, acelerou o processo de colonização da Região e deu condições para o seu povoamento”.
          
[...] os fundadores da Maripá também tiveram participação ativa em outros empreendimentos colonizadores no Oeste paranaense. Pode-se citar, entre eles, a Colonizadora Gaúcha Ltda. (São Miguel do Iguaçu); Industrial Agrícola Bento Gonçalves (Medianeira); Colonizadora Matelândia (Matelândia); Terras e Pinhais Ltda. (São Jorge – Foz do Iguaçu) e a Pinho e Terras Ltda. (Céu Azul)  (Colodel, 2003, p.69).
                 
           O grande sucesso do empreendimento comercial da Maripá despertou o interesse de outros capitalistas gaúchos. Assim, várias empresas voltadas à colonização foram criadas no Rio Grande do Sul com o objetivo de lucrar, e lucrar alto, com a revenda de terras no Oeste paranaense.
            Os projetos colonizadores se multiplicam e atraíram milhares de famílias durante as décadas de 1940-50. Podemos chamar essa fase como sendo a frente de povoamento sulista, já que a corrente colonizadora tem sua origem preferencialmente nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ela entrará na década de 1970, formando vários municípios oestinos.

Durante a década de 1940, a população dobrou de 145.000 habitantes para 295.000, o que se deveu principalmente à entrada de uns 116.000 imigrantes [na verdade migrantes], tendo se dado a penetração da região tanto pelo sul como, também, efeito do transbordamento da nova região cafeeira, pelo norte, através de Campo Mourão e ao longo da ferrovia projetada de Cianorte  para Guaíra. Durante o decênio 1950-60, porém, a imigração [sic] para o oeste do Estado deu um salto para 580.000 pessoas e a população total para 988.000, representando um aumento de aproximadamente sete vezes em cerca de vinte anos; posteriormente, com a aceleração da imigração [sic] líquida depois de 1960 (423.000 em cinco anos), a população alcançou 1.584.000 em 1965. Neste ano a densidade demográfica para todo o oeste era de 46,1 hab./milha quadrada [1 milha é igual 2.200 metros], maior do que a do leste do Paraná em 1965 se excluirmos a zona de Curitiba [...] como resultado da Segunda onda de explosão demográfica no Paraná resultante da imigração [sic], a participação do oeste na população total do Estado aumentou de 11,7 para 27,1 por cento durante o período 1940-65 (Nicholls, 1971, p. 39).

           Antes dela o Oeste foi alcançado por uma rarefeita frente de ocupação e colonização proveniente do chamado Paraná Tradicional, tendo como centros irradiadores os Campos de Guarapuava, das antigas colônias de imigrantes europeus estabelecidos no terceiro planalto e de Laranjeiras do Sul, dentre outros. Seu principal eixo de penetração, como já dissemos, foi a estrada ligando Guarapuava a Foz do Iguaçu. Esse fluxo populacional encontrou espaço nos atuais territórios de Cascavel, Catanduvas, Guaraniaçu e Foz do Iguaçu.
            Finalmente temos uma terceira frente de colonização. Depois de ter ocupado o Norte paranaense, atraída pela economia cafeeira, atravessou o rio Piquiri e chegou ao Oeste. Compõe esse fluxo populacional elementos que haviam saído dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e também do Nordeste brasileiro. Da sua ação povoadora surgiram os municípios Guaíra, Palotina, Terra Roxa, Assis Chateaubriand, Formosa do Oeste, Nova Aurora, Vera Cruz do Oeste, Ouro Verde do Oeste, Cafelândia, Tupãssi, Corbélia, Braganey, dentre outros.
            No final da década de 1980 encontramos Oeste paranaense como uma região com estabilidade geográfica e demográfica[1]. A sua inserção econômica com o restante do mercado nacional, iniciada com a criação e revenda de suínos na década de sessenta, e, também internacional, dá-se com a mecanização da agricultura, iniciada já no início dos anos setenta, proliferação do sistema financeiro e com o plantio intensivo do soja e do milho. (FIM)




[1] Entretanto, desde meados dessa década o Extremo-Oeste é alvo de uma última grande modificação geográfica e demográfica que terá efeitos sócio-econômicos duradouros sobre toda a região. Essa mudança tem origem na construção da hidroelétrica de Itaipu Binacional; iniciada em 1974. A formação do seu Reservatório, em 1982, somente foi possível através da desapropriação de milhares de propriedades rurais e na migração forçada de milhares de colonos estabelecidos em áreas marginais ao rio Paraná, e cujo destino ainda é merecedor de estudos mais aprofundados. Em 82 os municípios atingidos pelo Reservatório de Itaipu foram os seguintes: Santa Helena, Marechal Cândido Rondon, Terra Roxa, Guaíra, Matelândia, Medianeira, São Miguel do Iguaçu e Foz do Iguaçu. Pelos desmembramentos territoriais ocorridos desde então, recebem atualmente os chamados royalties também os municípios de Diamante D’Oeste, Entre Rios do Oeste, Itaipulândia, Mercedes, Missal, Pato Bragado, São José das Palmeiras, Santa Terezinha de Itaipu e Mundo Novo; este último no Estado do Mato Grosso do Sul.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

E NÃO É QUE O TEMPO PASSOU! 
E PODIA SER DIFERENTE!?
Santa Helena 46 anos

José Augusto Colodel

Foi-se o tempo em que pela Avenida Brasil passava boi, passava boiada. Passava também a porcada, capitaneada pelo "frenteiro", treinado para seguir uma espiga de milho, apetitosa à frente do focinho. Longo desfile de suínos que seguiam, passo lento e ressabiado para Ponta Grossa. A avenida era puro chão, chão puro, poeirento ou enlameado conforme os caprichos do tempo! E pelos lados da rua a turma a espiar o cortejo mal-cheiroso. Ninguém dava muita bola para o "perfume", mesmo porque dizia-se que porco tinha cheiro de dinheiro!
Pela Avenida passava boi, passava boiada.

Por uma razão ou outras eles acreditaram.

Também foi-se o tempo do desfile de jipes aos sábados de manhã, das compras mensais e semanais nas poucas e tradicionais casas comerciais. O fiado ainda valia, como também valia a palavra de homem, afiançada no fio de bigode! Nas lojas e empórios comprava-se querosene,  fumo em corda, aguardente, brim, chapéus, tecidos em metro, munição, botinas, cordas e ferramentas, e assim ia.

Das comunidades espalhadas pelo interior do município pipocavam ônibus superlotados, num vai e vem pra cima e pra baixo. E não estou querendo dizer que a zona rural era "fraquinha", desabitada. Muito pelo contrário, gente era o que não faltava, dando animação à Vila Celeste, Sub-Sede, Correia Porto, Santa Helena Velha, São Clemente, etecétera e tal. Foi o Lago de Itaipu em 1982 quem acabou com a festa, deixando Santa Helena com cerca de 70%do seu território original.

Santa Helena, o município propriamente dito, criado e emancipado, tem 46 anos de vida, algo em torno de duas gerações. Contudo, as raízes são muito mais profundas. E elas vão longe, mas para não cavarmos muito nesses labirintos da história vamos nos fixar inicialmente no início do século XX, quando nas proximidades da margem esquerda do rio Paraná se fixaram as primeiras famílias de colonos. Era o núcleo populacional de Santa Helena Velha. Lugar antigo, testemunha ocular da passagem das tropas revolucionárias de Prestes na região, em 1924-1925. Aliás, foi ali que a Coluna, com Prestes no comando, iniciou suas peripécias Brasil afora, até o final da épica jornada na Bolívia, em 1927.

Foi-se o Paranazão, com seus vapores e jangadas.
Santa Helena Velha reinou inconteste até o início da década de 1950 quando a Imobiliária Agrícola Madalozzo criou os núcleos de Santa Helena (nova) e Sub-Sede São Francisco. Aliás, a imobiliária tinha experiência, pois já tinha investido e criado o atual município de Planaltina. E com a Madalozzo, seus terrenos, chácaras e colônias, a migração explodiu. Milhares e milhares de famílias aventuraram-se e fincaram os pés no Oeste paranaense e em Santa Helena durante as décadas de 1950 a 1970, mudando completamente a paisagem natural, demográfica, social e econômica desta região.

Foi-se também o Saltinho e seus piqueniques de final de semana.

E o tempo passava, continua passando, carregando consigo sua historicidade, suas contradições e sua processualidade. O município criado em 1967 encolheu em 1982 com a Binacional. A agricultura do tipo familiar integrou-se de corpo e alma ao ditames do mercado nacional e internacional, da grande produção. As economias, guardadas no velho cofre de algum comerciante de confiança,  ficaram para trás, obsoletas. O Banco do Brasil aportou sem rodeios, cheio de vitalidade, voraz, arauto do moderno sistema financeiro. Com ele ou junto com ele vieram a destoca, a  mecanização e o plantio intensivo do soja e do milho. As madeireiras viraram laminadoras. O trigo, bonito de se ver, amarelinho ouro  ao sabor dos ventos, durou até o final da década de 1980. Ele também foi - dizem que o clima não ajuda. Foi também o hortelã, cujo óleo era vendido a "peso de ouro" nas década de 1960 e 1970.

A Santa Helena (nova) em meio à mata.

Daí então a chuva passou a encharcar o asfalto e pela Avenida Brasil já não passa boi, não passa boiada. Também não passa a porcada. Ficou o cheiro, o cheiro da poeira, da brisa da mata, da terra molhada e da porcada que tinha cheiro de dinheiro!