sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Então corra, porque a Coluna vem aí!
No dia em que Foz do Iguaçu caiu sem que se disparasse um tiro sequer.
![]() |
| 1924. Revolucionários no Marcos das Três Fronteiras, em Foz do Iguaçu. |
O furdunço começou em 5 de julho de 1924, quando explodiram diversas revoltas militares por todo o Brasil.
Para um grupo de oficiais e soldados o negócio era a derrubada do mineiro Arthur Bernardes, “eleito” Presidente da República nas eleições de março de 1922.
Era tempo da política do “café com leite”, quando as elites políticas e econômicas de São Paulo e Minas Gerais mandavam e desmandavam, revezando-se na escolha do candidato à presidência do Brasil. Escolhiam, impunham e ganhavam.
Do outro lado, naquele pleito, numa espécie de frente de oposições, estava o advogado carioca Nilo Peçanha. Assumiu a presidência da república após o falecimento de Afonso Pena, em 14 de junho de 1909, e governou até 15 de novembro de 1910. Talvez o único mulato presidente do Brasil. Sua candidatura era apoiada pelos estados do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Bahia.
Como era jogo de cartas marcadas, a oposição perdeu e explodiu então a rebelião, em gestação desde a fracassada revolta dos 18 do Forte de Copacabana.
A revolta militar teve início em São Paulo e naquela cidade os revoltosos ficaram dezenove dias, depois do que tiveram que fugir para poupar a população civil do mortal bombardeio da artilharia e dos aviões do governo.
Saindo da capital paulista a já batizada “Coluna Paulista” se dirigiu para o interior. Acossados, em menor número, os rebeldes foram derrotados em Três Lagoas (SP) e não tiveram outra escolha senão entrar em território paranaense.
No Oeste do Paraná pretendiam instalar o seu “Estado Livre do Sul” e aguardar reforços dos revolucionários gaúchos. Assim foi feito e a Coluna Paulista se estabeleceu na região
Enquanto isso, lá no Rio Grande do Sul, mais precisamente na cidade de Santo Ângelo, um capitão de engenharia também se rebelou e aderiu à revolução – ou golpe militar? Seu nome: Luís Carlos Prestes. No comando da “Divisão Rio Grande” combateu com maestria e tenacidade as tropas bernardistas, superiores em número e equipamentos. A exemplo dos paulistas foi obrigado a recuar sob pena de destruição. Prestes atravessou parte do Rio Grande, o Oeste de Santa Catarina, o rio Iguaçu e veio dar no Oeste paranaense.
![]() |
| Luís Carlos Prestes (1898-1990). |
Aqui chegou em abril de 1925, no exato momento em que as tropas revolucionárias vindas de São Paulo eram obrigadas a abandonar a região e seguir em direção ao Paraguai, após serem derrotadas em Catanduvas.
Entretanto, antes da derrota em Catanduvas e da chegada dos revolucionários gaúchos, muita coisa acontecera.
No Oeste paranaense a idéia da Coluna Paulista, após ter deixado São Paulo, era a captura da cidade de Guaíra, sede da Companhia Mate Laranjeira, e dali descer em direção a Foz do Iguaçu. Antes, para ter uma base de apoio, tomaram o Porto São José, em 31 de agosto de 1924; a primeira localidade paranaense a cair nas mãos das tropas revolucionárias.
Em Guaíra estavam aquartelados oitenta soldados do governo, comandados por um tal de Dilermano de Assis. Os rebeldes atacaram por terra e pelo rio Paraná. Venceram de vereda, pois antes do combate decisivo tiveram a sorte de aprisionar uma lancha da Mate Laranjeira, pilotada por um paraguaio. Interrogado, abriu o bico e contou tudo o que sabia; inclusive que havia sido colocada uma poderosa bomba (mina) no meio do rio e que, amarrada com arame, explodiria ao menor contato. Entregou também o código luminoso secreto que permitia somente as embarcações da empresa entrar livremente em Guaíra.
![]() |
| Soldados revolucionários em Foz do Iguaçu, 1924. |
Daí foi moleza. Tendo conquistado Guaíra, os revolucionários margearam o rio Paraná e capturaram Porto Mendes e o Porto São Francisco, no dia 15 de setembro. No dia 19 ocuparam Porto Britânia. Dali, uma parte das tropas foi mandada para a região de Catanduvas. Quem seguiu adiante, rumo a Foz pelo rio, foi uma pequena patrulha de dez homens, de barco, comandados por Juarez Távora.
A patrulha avançou com todo cuidado e ao longe pode avistar o porto de Foz do Iguaçu. Como não encontrou resistência, Juarez ordenou que a lancha atracasse e que seus homens subissem em direção à cidade, tomando todas as precauções. Não foi para sua surpresa que ele não encontrou viva alma pelo caminho. O que lhe chamou a atenção foi o movimento no único edifício de alvenaria construído na cidade. Pensou que iria encontrar resistência, mas que nada! Para sua surpresa e alegria, o motivo da aglomeração era o velório de uma velha que havia morrido na véspera e que estava sendo “guardada” na cadeia local.
![]() |
| Tenente Cabanas (1895-1974). |
Com a tomada de Foz do Iguaçu todo o Oeste paranaense ficou sob o controle das tropas revolucionárias por cerca de oito meses. Durante todo esse período cessou o comércio fluvial pelo Paraná, o que causou grandes transtornos para as populações ribeirinhas. Obrageros e capatazes também fugiram, temerosos de serem aprisionados pelos rebeldes.
Por terra ninguém se aventurava e a região ficou completamente isolada até o fim dos combates, em 29 de abril de 1925.
Anos depois vieram a Revolução de 1930, Getúlio Vargas, a tal da “marcha para o oeste”, as vendas de terras, negociatas, as companhias colonizadoras, migrantes gaúchos, catarinenses e nordestinos. Mas essa e uma outra história, uma história em movimento. jacolodel@bol.com.br - historiador
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Na falta de hospital,
que tal o Hotel Webber?
Vista do primeiro hotel construído na cidade de Santa Helena. Tinha dois pisos e pertencia inicialmente a Antonio Thomé, que o vendeu naquele mesmo ano para Orlando Webber. A residência em primeiro plano pertenceu a João Marcelino Madalozzo.
Já eram mais de três horas da matina e o lugarejo encontra-se profundamente adormecido e às escuras. Pelas ruas viva alma. Como pano de fundo, em sentinela, uma prateada e brilhante lua cheia - sonho de qualquer astrônomo amador.
Nesse exato momento, diante da portaria improvisada do Hotel Webber, na pequenina cidade de Santa Helena, em plena Avenida Brasil , um colono esbaforido encosta a carroça. Acompanha-o a mulher, vinte e três anos e grávida de nove meses, na bica para ser mãe pela segunda vez. O marido, agitado pra chuchu, vem em busca de socorro médico naquela madrugada abafada do longínquo verão de 1963.
Havia chovido forte durante toda a manhã e parte do dia anterior e uma espessa e pegajosa camada de lama avermelhada cobria ruas e estradas, tornando-as praticamente intransitáveis. A bem da verdade, que se diga que até o momento em que as primeiras ruas da cidade foram asfaltadas, lá por meados da década de 1970, a lama e o pó se revelavam um tormento para o dia a dia da população local; principalmente para as donas de casa que sofriam derrota após derrota na inglória guerra de manter a casa limpa.
Desde o ano anterior, 1962, Santa Helena era distrito de Medianeira e a principal avenida, a exemplo de tantas outras cidades do Oeste paranaense, fora batizada de Brasil. O núcleo urbano era parte do projeto colonizador levado a efeito pela Imobiliária Agrícola Madalozzo, com sede na cidade de Erechim, lá no Rio Grande do Sul. No vilarejo propriamente dito existiam poucas casas, na maioria moradias de madeira, muitas das quais erguidas pelas mãos de alguns hábeis carpinteiros tais como o Primo Alfredo Zanetti.
O Hotel Webber, também levantado com madeira de lei, foi construído e inaugurado em 1958. Pertenceu inicialmente a Antonio Thomé e em 1960 foi vendido para o comerciante Orlando Webber. Na primeira eleição direta para prefeito, em 1968, ele formaria chapa com Arnaldo Weisheimer, na qualidade de seu vice, sagrando-se vencedor daquele pleito.
Além do Hotel Webber, existia na sede do então distrito o Novo Hotel Frank, também de madeira e dotado de dois pavimentos. Após a criação e instalação do município ele foi alugado à municipalidade e abrigou durante algum tempo no andar térreo a Prefeitura e no primeiro andar a Câmara Municipal.
- Desculpe seu eu te incomodo a estas horas, seu Orlando. O doutor Miguel se encontra? Ele precisa atender a minha senhora, que está para ter neném a qualquer momento. Depressa, por favor, que ela tá ali na carroça gemendo de dor. Nós ia se virar com a parteira, mas ela teve que acudir alguém lá pelas bandas de Sub-Sede.
- Ele tá dormindo. O senhor aguarde aí que eu já vou chamá-lo. Foi dito e feito.
O Dr. Miguel Correia Martins foi o primeiro médico formado a se estabelecer em Santa Helena. Ele chegou nos idos de 1963, recém-casado e com o diploma fresquinho debaixo do braço. Até poder instalar-se em seu próprio consultório, ele clinicou regularmente ali mesmo no Hotel Frank. Atendia num quarto que para ele foi especialmente reservado. Quem o ajudava, fazendo o papel de enfermeira, era sua jovem esposa Alice.
Pois é, foi naquele quarto de hotel, privado de quase todos os recursos e equipamentos, que os moradores de Santa Helena receberam os primeiros serviços de atendimento médico. Mas que não se enganem, pois ali foram realizados até mesmo procedimentos cirúrgicos complicados, tais como amputações, ataques de animais, facadas e a extração de projéteis de armas de fogo.
Assim sendo, não era raro que o Dr. Miguel atendesse casos como esse e tantos outros madrugada afora. Já estava acostumado, dadas as dificuldades iniciais com que se deparava o jovem aglomerado urbano, carente de quaisquer comodidades. O fato de atender alguns de seus pacientes nas dependências do hotel não causava nenhum constrangimento. Para os moradores, o importante é que contavam regularmente com assistência médica qualificada, com um médico que residia permanentemente em Santa Helena. Verdadeira conquista quando quase tudo faltava e quase tudo era necessário.
Para alívio de todos o parto transcorreu na mais perfeita tranqüilidade. Tanto o foi que algumas horas depois a paciente pode retornar para casa, toda enfaixada, em quarentena, carregando em seus braços uma rechonchuda garotinha, mais tarde batizada de Luiza. E quanto aos honorários médicos? Uma parte em dinheiro vivo e a promessa de que o restante seria pago dentro de algumas semanas, como de fato o foi. Acerto sem notas ou recibos, tudo no fio do bigode. Que saudades daqueles tempos quando a palavra de um homem valia muito mais do que qualquer documento!
E quanto ao doutor Miguel Correia Martins? Bem, ele permaneceu clinicando em Santa Helena até o ano de 1975, quando se mudou para o Mato Grosso.
Antes disso, porém, ele fundou o Hospital Santa Helena, em sociedade com o Balduíno (Pitt) Dietrich. Construído defronte à Praça do Colono ele foi vendido em 1974 para os doutores Afonso Lanner, Edemar Stieven e Fernando Yamamoto, dando origem à Policlínica Santa Helena. Mas essa é uma outra história.
Vista parcial da Avenida Brasil, em 1962. Da esquerda para a direita: residências de Armando Cattani, Ângelo Cattani, Dionísio Pratti, Carlos Pomagerski e Theodor Schierholt.
jacolodel@bol.com.br - historiador
Assinar:
Postagens (Atom)





