terça-feira, 31 de julho de 2012


Uma voltinha por Santa Helena em dezembro de 1971

 A novidade era a luz da Copel


José Augusto Colodel


     No ano de 1971 o Brasil ainda vivia sob  a égide do "milagre econômico", encabeçado pelo super ministro da fazenda Antonio Delfin Neto. Brasil do tipo "esse é um país que vai pra frente" - que era o trechinho de uma música propalada pela ditadura e elites conservadoras. Nas prisões espalhadas pelo país o "pau comia solto" nas sessões de tortura contra supostos comunistas e subversivos. A seleção  era  tri-campeã e o Pelé já pensava em se aposentar do escrete canarinho. No Paraná do café quem governava era Haroldo Leon Peres. Político nomeado pelo regime e que teve o mandato cassado em novembro e substituído por Pedro Viriato Parigot de Souza. Lá em Washington, na Casa Branca, o presidente Emílio Médici, em conversa com o colega americano Richard Nixon, afirmava solene que "estava trabalhando" para derrubar o governo do socialista chileno Salvador Allende, o que aconteceria efetivamente em setembro de 1973. 
      E no Oeste paranaense, pelas ruas da cidade de Santa Helena o comentário entre os moradores era um só: - Está quase na hora de abandonar o bom e velho lampião!
    Afinal de contas Santa Helena crescia num ritmo estonteante e as necessidades da nova e próspera cidadezinha assim o exigiam.
     E esse era um sonho antigo que finalmente se concretizava, mesmo porque já no início de 1971 o pessoal da Copel havia iniciado estudos no sentido de que a rede de energia elétrica chegasse até o perímetro urbano. A promessa era a de que no mais tardar até o final daquele ano a luz chegaria – e, pasmem, não é que ela chegou!
     A solenidade de inauguração ocorreu dia 27 de dezembro nas dependências da antiga Prefeitura, ali na Avenida Brasil, e foi uma beleza. População reunida, políticos,bajuladores de todas as tonalidades, autoridades e tudo o que era de praxe. Com o Arnaldo Weisheimer afastado coube ao vice-prefeito eleito Orlando Webber representar o município e assinar a papelada. Como não podia deixar de ser o Legislativo Municipal se fez presente em peso tendo à frente o presidente José Biesdorf, acompanhado pelos vereadores Ernesto Abrelino Thomé, Agílio de Oliveira, Primo Colombelli, Arcy João Panassolo, Walter Edgar Galle, Vitalino Joaquim Soares, Arthur Schlitler e pelo secretário executivo Hugo Afonso Scher.  
     A luz elétrica era uma realidade. Um verdadeiro divisor de águas. A partir daqueles postes fincados pela Copel no canteiro central da Avenida Brasil muita coisa mudou e Santa Helena nunca mais foi a mesma. A história que o diga!
Dia de festa no centro da cidade -
a antiga Praça Antonio Thomé serve de estacionamento.

      Diante da revelação desse acontecimento de tamanhas repercussões futuras, floresceu a idéia de darmos um breve passeio, olhando com o devido distanciamento histórico, algumas coisas e pessoas que faziam e aconteciam naquela Santa Helena de 1971.
     O município, instalado oficialmente em 1968, era ainda novinho, novinho em folha, mas a população já ultrapassava os 27 mil habitantes.
     As terras colocadas à venda pela Imobiliária Agrícola Madalozzo, sediada em Erechim, eram compradas a torto e a direito. Quase não passava um dia sem que chegasse gente de mudança. Famílias à procura de um futuro promissor e  aventureiros de boa ou má índole palmilhavam com olhos gordos as terras férteis da fronteira.
     Existiam 3.500 propriedades agrícolas e mais de 500 casas na sede municipal. A base da economia era a agricultura, começando timidamente a ganhar ares de mecanização e a pecuária, principalmente de leite. Além dessas, davam os ares da graça riquezas passageiras e bem vindas tais como o café e o hortelã.
     Na área educacional funcionava o Graciliano Ramos, 8 escolas estaduais, 57 municipais, duas particulares e um jardim de infância. A população professava seis religiões, com três paróquias e setenta capelas.O interior era grande barbaridade!
     Nos meios sociais a beleza da mulher local se destacava com a estudante Edna Sanches, fã do Moacir Franco, signo de escorpião e eleita Rainha da Rádio Nacional de São Paulo, pela cidade de Santa Helena.
     Doente? Tenha calma. Quem precisasse de remédio de dia ou de noite ia até a Farmácia São José, que tinha até filial em Moreninha. Se não quisesse então que fosse até a Farmácia Paraná, do Manoel Casarotto, que oferecia à clientela medicamentos dos melhores laboratórios e perfumaria em geral.
     Os viajantes eram bem recepcionados no Turis Hotel, de propriedade do Peri Backer, solidamente construído na Avenida Brasil e que oferecia como comodidades bar e churrascaria anexos, além de boas camas com colchão de molas. Um requinte só. Já o La Paloma Hotel disputava a farta clientela dispondo de bar, restaurante e dormitório, alardeando um ambiente seleto e acolhedor. Bem frequentado também era o bar, hotel e restaurante Simeoni, comandado pelo Rizzieri Simeoni. Seu lema: "servindo bem para servir sempre!". E em se falando de bar e churrascaria tinha ainda a do Aquelino Paludo.
      Para os motoristas locais e viajantes o abastecimento de gasolina e óleo diesel ficava por conta do Posto Ipiranga, onde também funcionava a Mecânica Santa Helena, especializada nos misteres dos mais diversos motores e solda elétrica em geral.  Tinha ainda o Posto Esso e o pioneiro Posto Fockink, do saudoso Normindo.
     Mas quem quisesse andar alinhado tinha que ir é na Alfaiataria Elite. Ali, o Alcides Sbardelotto passava os dias confeccionando ternos para casamento e passeio. Além disso ele forrava botões e tinha a mão certa para o feitio de calças esporte.
     De portas abertas também estava a Comercial Allegretti Ltda. A família, que havia chegado em 1962, mexia com quase tudo, contando com um amplo estoque de secos e molhados, ferragens, tecidos, armarinhos, motores, motos-serra, etecétera e tal.
Antiga Rodoviária, defronte ao Hotel Simioni.

     Na Avenida Brasil também estava instalada a tradicional Loja Tupinambá, do tão conhecido Portelinha, vendendo a precinhos camaradas tecidos e confecções de alta qualidade. Como dizia a propaganda mesmo?  “Venham todos e aproveitem pois este é o endereço certo para uma boa compra”.
     E no futebol que riu por último foi a Sociedade Esportiva Palmeiras, legítima campeão de 1971, tendo como presidente o Calixto Pratti.
     Algumas coisas e pessoas que no longínquo e saudoso 1971 faziam a história de Santa Helena. Algumas delas ainda estão por aí e continuam a fazê-la. 1971, um ano em que o lampião cedeu espaço para a luz elétrica, deixando na penumbra, mas não esquecido, um tempo que não volta mais.

terça-feira, 24 de julho de 2012

LIVROS GRATUITOS NA INTERNET!


Essa lista é muito útil para quem quer baixar livros gratuitamente. 
Existem vários tipos de livros e documentos históricos. 
Há sites do mundo todo, inclusive livros em português. Vale a pena conferir!


Biblioteca Apostólica Vaticana – biblioteca que possui um arquivo secreto: bav.vatican.va
Biblioteca Central – localize os livros das bibliotecas da UFRGS: www.biblioteca.ufrgs.br
Biblioteca del Congreso – item Expo Virtual mostra alguns tesouros dessa biblioteca argentina:www.bcnbib.gov.ar
Biblioteca Digital Andina – Bolívia, Colômbia, Equador e Peru estão representados:www.comunidadandina.org/bda
Biblioteca Digital de Obras Raras – livros completos digitalizados, como um de Lavoisier editado no século 19: www.obrasraras.usp.br
Biblioteca do Hospital do Câncer – índice desse acervo especializado em oncologia:www.hcanc.org.br/outrasinfs/biblio/biblio1.html
Biblioteca do Senado Federal – sistema de busca nos 150 mil títulos da biblioteca:www.senado.gov.br/biblioteca
Biblioteca Mário de Andrade – acervo, eventos e história da principal biblioteca de São Paulo:www.prefeitura.sp.gov.br/mariodeandrade
Biblioteca Nacional de Portugal – apresenta páginas especiais com reproduções relacionadas a Eça de Queirós e a Giuseppe Verdi, entre outros: www.bn.pt
Biblioteca Nacional de España – entre as exposições virtuais, uma interessante coleção cartográfica do século 16 ao 19: www.bne.es
Biblioteca Nacional de la República Argentina – biblioteca, mapoteca e fototeca:www.bibnal.edu.ar
Biblioteca Nacional de Maestros – biblioteca argentina voltada para a comunidade educativa:www.bnm.me.gov.ar
Biblioteca Nacional del Perú – alguns livros eletrônicos, mapas e imagens: www.binape.gob.pe
Biblioteca Nazionale Centrale di Roma – expõe detalhes de obras antigas de seu catálogo:www.bncrm.librari.beniculturali.it
Biblioteca Româneasca – textos em romeno e dados sobre autores do país: biblioteca.euroweb.ro
Biblioteca Virtual Galega – textos em língua galega, parecida com o português: bvg.udc.es
Bibliotheca Alexandrina – conheça a instituição criada à sombra da famosa biblioteca, que sumiu há mais de 1.600 anos: www.bibalex.org/website
California Digital Library – imagens e e-livros oferecidos pela Universidade da Califórnia:californiadigitallibrary.org
Celtic Digital Library – história e literatura celtas: celtdigital.org
Círculo Psicanalítico de Minas Gerais – acervo especializado em psicanálise:www.cpmg.org.br/n_biblioteca.asp
Cornell Library Digital Collections – compilações variadas, sobre agricultura e matemática, por exemplo: moa.cit.cornell.edu
Corpus of Electronic Texts – história, literatura e política irlandesas: www.ucc.ie/celt
Crime Library – histórias reais de criminosos, espiões e terroristas: www.crimelibrary.com
Educ.ar Biblioteca Digital – em espanhol, apresenta livros e revistas de “todas as disciplinas”:www.educ.ar/educar/superior/biblioteca_digital
Gallica – Bibliothèque Numérique – volumes da Biblioteca Nacional da França digitalizados:gallica.bnf.fr
Human Rights Library – mais de 14 mil documentos relacionados aos direitos humanos:www1.umn.edu/humanrts
IDRC Library – textos e imagens desse centro de estudos do desenvolvimento internacional:www.idrc.ca/library
Internet Ancient History Sourcebook – página dedicada à difusão de documentos da Antiguidade: www.fordham.edu/halsall/ancient/asbook.html
Internet Archive – guarda páginas da internet em seus diversos estágios de evolução:www.archive.org
Internet Public Library – indica páginas em que se podem ler documentos sobre áreas específicas do conhecimento: www.ipl.org
John F. Kennedy Library – sobre o presidente americano John F. Kennedy, morto em 1963:www.cs.umb.edu/jfklibrary
LibDex – índice para localizar mais de 18 mil bibliotecas do mundo todo e seus sites:www.libdex.com
Lib-web-cats – enumera bibliotecas de mais de 60 países, mas o foco são os EUA e o Canadá:www.librarytechnology.org/libwebcats
Libweb – outro site de busca de instituições, com 6.600 links de 115 países:sunsite.berkeley.edu/Libweb
Mosteiro São Geraldo – livros e periódicos sobre história e literatura húngara, filosofia, teologia e religião: www.msg.org.br
National Library of Australia – divulga periódicos australianos da década de 1840: www.nla.gov.au
Oxford Digital Library – centraliza acesso a projetos digitais das bibliotecas da Universidade de Oxford: www.odl.ox.ac.uk
Perseus Digital Library – dedicado a estudos sobre os gregos e romanos antigos:www.perseus.tufts.edu
Servei de Biblioteques – bibliotecas da Universidade Autônoma de Barcelona: www.bib.uab.es
The Aerial Reconnaissance Archives – recém-lançado, site promete divulgar 5 milhões de fotos aéreas da Segunda Guerra Mundial: www.evidenceincamera.co.uk
The British Library – além de busca no catálogo, tem coleções virtuais separadas por região geográfica: www.bl.uk
The Digital Library – diversas coleções temáticas, como a de escritoras negras americanas do século 19: digital.nypl.org
The Digital South Asia Library – periódicos, fotos e estatísticas que contam a história do Sul da Ásia: dsal.uchicago.edu
The Huntington – grande quantidade de obras raras em arte e botânica: www.huntington.org
The Math Forum – textos que se propõem a auxiliar no ensino da matemática:mathforum.org/library
The New Zealand Digital Library – destaque para os arquivos sobre questões humanitárias:www.sadl.uleth.ca/nz/cgi-bin/library
Treasures of Keyo University – um dos destaques é a reprodução da Bíblia de Gutenberg:www.humi.keio.ac.jp/treasures
Unesco Libraries Portal – informações sobre bibliotecas e projetos voltados para a preservação da memória: www.unesco.org/webworld/portal_bib
UOL Biblioteca – dicionários, guias de turismo e especiais noticiosos: www.uol.com.br/bibliot
UT Library Online – possui uma ampla coleção de mapas: www.lib.utexas.edu
BIBLIOTECAS VIRTUAIS
Alexandria Virtual – acervo variado, de literatura a humor: www.alexandriavirtual.com.br
Bartleby.com – importantes textos, como os 70 volumes da “Harvard Classics” e a obra completa de Shakespeare: www.bartleby.com
Bibliomania – 2.000 textos clássicos e guias de estudo em inglês: www.bibliomania.com
Biblioteca dei Classici Italiani – literatura italiana, dos “duecento” aos “novecento”:www.fausernet.novara.it/fauser/biblio
Biblioteca Electrónica Cristiana – teologia e humanidades vistas por religiosos:www.multimedios.org
Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro – especializada em literatura em língua portuguesa:www.bibvirt.futuro.usp.br
Biblioteca Virtual – Literatura – pretende reunir grandes obras literárias: www.biblio.com.br
Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes – cultura hispano-americana: www.cervantesvirtual.com
Biblioteca Virtual Universal – textos infanto-juvenis, literários e técnicos: www.biblioteca.org.ar
Contos Completos de Machado de Assis – mais de 200 contos de Machado de Assis:www.uol.com.br/machadodeassis
Cultvox – serviço que oferece alguns e-livros gratuitamente e vende outros: www.cultvox.com.br
Dearreader.com – clube virtual que envia por e-mail trechos de livros: www.dearreader.com
eBooksbrasil – livros eletrônicos gratuitos em diversos formatos: www.ebooksbrasil.com
iGLer – acesso rápido a duas centenas de obras literárias em português:www.ig.com.br/paginas/novoigler/download.html
International Children’s Digital Library – pretende oferecer e-livros infantis em cem línguas:www.icdlbooks.org
IntraText – textos completos em diversas línguas, entre elas o latim: www.intratext.com
Jornal da Poesia – importante acervo de poesia em língua portuguesa, com textos de mais de 3.000 autores: www.secrel.com.br/jpoesia
Net eBook Library – biblioteca virtual com parte do acervo restrito a assinantes do site:netlibrary.net
Nuovo Rinascimento – especializado em documentos do Renascimento italiano:www.nuovorinascimento.org/n-rinasc/homepage.htm
Online Literature Library – pequena coleção para ler diretamente no navegador:www.literature.org
Progetto Manuzio – textos em italiano para download, incluindo óperas:www.liberliber.it/biblioteca
Project Gutenberg – mantido por voluntários, importante site com obras integrais disponíveis gratuitamente: www.gutenberg.net
Proyecto Biblioteca Digital Argentina – obras consideradas representativas da literatura argentina: www.biblioteca.clarin.com
Romanzieri.com – livros eletrônicos em italiano compatíveis com o programa Microsoft Reader:www.romanzieri.com
Sololiteratura.com – textos sobre autores hispano-americanos: www.sololiteratura.com
Textos de Literatura Galega Medieval – pequena seleção de poesias e histórias medievais:www.usc.es/~ilgas/escolma.html
The Literature Network – poemas, contos e romances de aproximadamente 90 autores:www.online-literature.com
The Online Books Page – afirma ter mais de 20 mil livros on-line: digital.library.upenn.edu/books
The Online Medieval and Classical Library – obras literárias clássicas e medievais:sunsite.berkeley.edu/OMACL
Usina de Letras – divulga a produção de escritores independentes: www.usinadeletras.com.br
Virtual Book Store – literatura do Brasil e estrangeira, biografias e resumos:www.vbookstore.com.br
Virtual Books Online – e-livros gratuitos em português, inglês, francês, espanhol, alemão e italiano: virtualbooks.terra.com.br
CIENTÍFICOS
Banco de Teses – resumos de teses e dissertações apresentadas no Brasil desde 1987:www.capes.gov.br
Biblioteca Digital de Teses e Dissertações – textos integrais de parte das teses e dissertações apresentadas na USP: www.teses.usp.br
Biblioteca Virtual em Saúde – revistas científicas e dados de pesquisas sobre adolescência, ambiente e saúde : www.bireme.brDigital Library of MIT Theses – algumas teses do Instituto de Tecnologia de Massachusetts; a mais antiga é de 1888: theses.mit.edu
Great Images in Nasa – imagens históricas da agência espacial americana: grin.hq.nasa.gov
ProQuest Digital Dissertations – sistema para pesquisar resumos de teses e de dissertações:wwwlib.umi.com/dissertations
Public Health Image Library – fotos, ilustrações e animações voltadas para o esclarecimento de questões de saúde pública: phil.cdc.gov
PubMed – referências a 14 milhões de artigos biomédicos:www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi
SciELO – biblioteca eletrônica com periódicos científicos brasileiros: www.scielo.br
ScienceDirect – mais de 1.800 revistas, de “ACC Current Journal Review” a “Zoological Journal”:www.sciencedirect.com
Universia Brasil – busca teses nas universidades públicas paulistas e na PUC-PR:www.universiabrasil.net/busca_teses.jsp
ASSOCIAÇÕES
American Library Association – sobre o sistema de bibliotecas dos EUA: www.ala.org
Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas – publicações indicadas e agenda de eventos da área: www.apbad.pt
Association des Bibliothécaires Français – dossiês sobre o sistema francês de bibliotecas e temas correlatos: www.abf.asso.fr
Conselho Federal de Biblioteconomia – atualidades e links de interesse da área: www.cfb.org.br
Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo – legislação e eventos da biblioteconomia:www.crb8.org.br
Council on Library and Information Resources – organização que se preocupa com a preservação de informações: www.clir.org
European Bureau of Library, Information and Documentation Associations – entidade européia dedicada à promoção da ciência da informação: www.eblida.org
International Federation of Library Associations and Institutions – associação com membros em mais de 150 países: www.ifla.org
Sociedad Española de Doc

sexta-feira, 18 de maio de 2012


Companhia Paranaense de Colonização Espéria:
italianos da gema na fronteira oeste.

Parte final

           No Oeste do Paraná a falta de vias de comunicação adequadas com o citado projeto colonizador somada com a falta de uma mínima infraestrutura indispensável ao recebimento de colonos teve o seu preço. Um fracasso total! Tanto que em 1921 somente tinham sido atraídas 18 famílias de colonos do interior paulista.
              Não deu para aguentar tamanho déficit financeiro e os sócios em comum acordo decidiram abrir falência naquele mesmo ano. De acordo com EMER (1991), a massa falida foi vendida com a aquiescência do governo Estadual para a empresa Allegretti & Cia Ltda., com sede em Bento Gonçalves (RS). A Allegretti adquiriu 15.700 hectares em que já haviam sido demarcadas 628 colônias, tendo em vista vender estas colônias remanescentes aos colonos de origem italiana das regiões de Bento Gonçalves, Veranópolis, Cachoeira e Marau.

O governo paranaense estabeleceu o ano de 1936 como prazo final para a Allegretti colonizar estas terras. No entanto, as dificuldades de atração de colonos para esta região persistiram. A presença entre os anos de 1924 e 1925, dos revoltosos da Coluna Prestes, entre outras dificuldades na região, não efetivam a colonização permanente. Um novo prazo de seis anos para efetuar a colonização foi renegociado entre a colonizadora e o governo Estadual, e, mesmo assim não conseguiu atrair colonos com algum capital para adquirir as referidas terras. Desse modo, em função às dificuldades de colonização, o governo do Estado retomou os domínios das terras remanescentes (EMER, 1991, p. 70).

           A área disponível era imensa. Tanto o era que uma outra parte foi vendida para André Zílio e para a Industrial, Agrícola e Pastoril do Oeste de São Paulo, por 200$000 o hectare. Nesta transação imobiliária em pouco mais de cinco anos conseguiu extraordinário lucro de 5.555%. O concessionário anterior havia adquirido por 4$500 o hectare e a revenda da mesma terra ocorreu por 250$000, o hectare (WACHOWICZ, 1987, p. 160).
              A movimentação e a especulação fundiárias continuaram e não demorou muito para que a Companhia Espéria entrasse em cena. No ano de 1926 a Industrial Agrícola e Pastoril Oeste de São Paulo revendeu para a essa empresa 130 mil hectares.
           A Companhia Paranaense de Colonização Espéria foi constituída no ano de 1926, tendo com sede a cidade de São Paulo, sito à Rua Quinze de Novembro, 27. Seus principais acionistas naquela época eram Arturo Apollinari, Mário Silvio Polacco, Ezio Martinelli, Raul Machado e Domenico di Mattina, dentre outros. Anos mais tarde, como a Espéria não encontrou fôlego para saldar suas dívidas teve que entregar seu patrimônio a duas instituições financeiras. Em 1936 seus principais acionistas eram o Instituto Nazionali di Credito per Il Lavoro Italiano all’ Estero S.A., com sede na cidade de Roma e o Banco Francês e Italiano para a América do Sul, sediado em São Paulo.
           Até então, sob sua tutela dezenas de famílias de imigrantes italianos vieram para o Oeste paranaense, cuja sede era o Porto Sol de Maio, inaugurado em 1928.
           No Paraná o contrato da Espéria com o governo estadual deveria prolongar-se inicialmente até 1929, quando deveriam estar firmadas as bases de seu projeto colonizador. Nesse período, como quase nada tivesse sido feito pela empresa ela solicitou e conseguiu uma prorrogação de prazo até 1937.
           Nesse meio tempo veio a Revolução de 1930 e a Espéria perdeu seu direito de concessão.

Em função do Decreto nº 1.678, de 7 de julho de 1934, o governo paranaense considerou anulada a concessão de terras e, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o governo de Getúlio Vargas promulgou o Decreto nº 4.166, incorporando todos os bens da colonizadora, com o argumento de que esta empresa pertencia ao Instituto Nacionale di Credito per Lavoro Italiano All`Estero, ligado à capitais de origem italiana. Com o término do conflito da Segunda Guerra, e, decorrido alguns anos, os bens dos súditos do eixo foram devolvidos, e esta colonizadora continuou com as vendas das colônias restantes, uma vez que ao final da década de 1940, a frente pioneira gaúcha se aproximava dessa região (WACHOWICZ, 1987, p. 161).

           Como os trâmites fossem demorados ela conseguiu manter-se na região ainda por mais alguns anos. Recorreu da decisão paranaense junto ao governo federal e enquanto se aguardava a decisão judicial ficou de posse de todos os seus bens.
           Até 1937, quando se instalou como ditador no chamado Estado Novo, Getúlio contemporizou com as elites políticas paranaenses. Receava magoá-las, precisava ainda de seu apoio. Naquele ano, todavia, viu-se suficientemente forte para fazer inserir o artigo 165 na Constituição Federal, o qual criava uma faixa de fronteira de 150 quilômetros de largura. Nessa faixa os Governos Estaduais ficavam proibidos de fazer quaisquer investimentos ou projetos colonizadores sem prévia autorização do Governo Federal. É claro que o Oeste paranaense ficava dentro do perímetro da faixa de fronteira recém-criada. Nos anos que se seguiram o Paraná interrompeu por completo seus projetos colonizadores enquanto no Rio de Janeiro se preparava a legislação ordinária que definiria o povoamento da faixa de fronteira. Dentre outros dispositivos legais, criou-se oficialmente o Território Federal do Iguaçu, em 13 de setembro de 1943. A capital seria Foz do Iguaçu e mais tarde Laranjeiras do Sul. O Território Federal do Iguaçu permaneceria em vigência até que foi extinto por uma emenda inserida na Constituição de 1946. É bom lembrarmos que Getúlio Vargas foi afastado do poder em 1945, quando foi derrotado nas eleições presidenciais por Eurico Gaspar Dutra.
No plano político até a entrada do Brasil na segunda Guerra Mundial, ao lado dos aliados, em 1942, o fato é que Getúlio nutria simpatias ao Eixo. Vivia-se o Estado Novo (1937-1945), nascido com a descoberta do “Plano Cohen” e o desbarate da pseudo Intentona Comunista. E, sabe como é, ditador e ditaduras veem-se como cúmplices não importa a distância. Com a marcha da guerra pendendo para os aliados Getúlio resolveu mudar de lado, sendo ajudado em sua decisão pelo afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães. O simpatizante virou inimigo declarado – e essa mudança de conveniências não deixou de ter repercussões aqui no Oeste do Paraná.
                   Em guerra contra o Eixo o governo Vargas baixou uma lei determinando que todos os imigrantes de origem italiana, japonesa e alemã que não falassem a língua portuguesa fossem retirados a uma distância de 100 quilômetros da fronteira. Essa lei também determinou que imigrantes fossem retirados da faixa litorânea e ficassem pelo menos 100 quilômetros de distância do mar, por medida de segurança na­­cional. Somente em 1955 a faixa de fronteira seria estendida para 150 quilômetros.
           Vale dizer que a existência constitucional da área de fronteira remonta a 1850, quando a Lei Imperial n. 601, a “Lei de Terras”, surgiu com o objetivo de regularizar a situação das terras públicas, evitar abusos no apossamento e legitimar as ocupações, definindo as terras devolutas e proibindo a sua aquisição por outro título que não seja o de compra, estipulando uma exceção na faixa de fronteira, onde seriam concedidas gratuitamente para uma colonização mais rápida. Aparece aí, pela primeira vez, uma referência à faixa de fronteira que foi delimitada em 10 léguas (66 quilômetros).
           Mais ainda. O Decreto n. 1.318, de 30 de janeiro de 1854, ao regulamentar a referida lei, determinou em seu artigo 82 que “Dentro da zona de dez léguas contíguas aos limites do império com países estrangeiros, e em terras devolutas, que o governo pretende povoar, estabelecer-se-hão Colônias Militares”.
           Resumindo: de 1850 a 1934, a "faixa de fronteira" era de 10 léguas ou 66 quilômetros (Le Imperial n. 601 de 1850), e as "terras devolutas", situadas nessa extensão eram da União; de 1934 a 1937, a "faixa de fronteira" passou a ser de 100 quilômetros (Constituição de 1934), e as "terras devolutas", na faixa de 66 quilômetros continuaram a pertencer à União, e as localizadas na faixa de 66 a 100quilômetros pertenciam aos Estados; de 1937 até hoje, a "faixa de fronteira" foi ampliada para 150 quilômetros (Constituição de 1937, mantida pela Constituição de 1988), sendo que as"terras devolutas" situadas na faixa de 66 quilômetros (no período de 1934 a 1946 pertenciam à União, e as localizadas entre 66 e 150 quilômetros pertenciam aos Estados), e as localizadas em toda essa faixa de 150 quilômetros, desde 1946 até hoje, pertencem à União.
           Voltemos a meados do século XX, ao Oeste paranaense. As medidas visando a retirada de colonos estrangeiros da faixa de fronteira atingiram em cheio os italianos que haviam se fixado no projeto colonizador da Companhia Espéria, localizado no território de Santa Helena. E como não poderia deixar de ser a família Cinecatti sofreria na pele o que de ruim estava por vir.
           Mas não parou por aí. Getúlio foi mais longe. Ordenou ainda que fossem criadas “áreas de concentração” [1] onde deveriam permanecer essas populações “perigosas”. O medo era de que esses colonos imigrantes fossem “quinta colunas”, colaboradores ou simpatizantes do Eixo. Para o governo possíveis atos de sabotagem, dentre outras ações, tinham que ser evitados a todo custo. Quem não falasse o português tinha que sair da região e muitas famílias, italianas principalmente, tiveram que sair à força.

Eles mandaram desocupar aqui [Santa Helena], os estrangeiros, os italianos puros né, porque estavam na fronteira e tinham medo de uma revolta na fronteira. Achavam que os nossos pais iam de repente se revoltar contra os brasileiros. Então pegaram tudo que era italiano legítimo, levaram tudo embora.
Teve muita gente que apanhou que nem boi na roça porque chegaram aqui três, quatro polícia brasileira e mandaram os nossos pais falar em brasileiro e eles não sabiam. Então diziam os policiais: -“fala em brasileiro!” – Mas eu não sei! Tapa na cara! Deram prazo de 24 horas pra falar em brasileiro (GALLO, Armando, depoimento, 1987).

           A responsabilidade por tais arbitrariedades pode ser atribuída aos militares aquartelados na Companhia Independente de Fronteira, criada em 1932 em Foz do Iguaçu. Em 1943, após da entrada do Brasil na guerra, o número de soldados aumentou consideravelmente e a companhia foi transformada no Primeiro Batalhão de Fronteira.
           Para policiar toda a região foram montados pequenos destacamentos militares que subiam o Paranazão, parando de porto em porto. Agindo muitas vezes com violência desmedida e absolutamente desnecessária esses destacamentos criaram um clima de medo e insegurança entre os supostos “súditos do eixo” que residiam na região marginal ao grande rio.
           E se a coisa estava feia, ficou pior. Não demorou muito para que os colonos imigrantes fossem informados que teriam que abandonar suas terras. Assim, de chofre! Seriam transferidos para Foz do Iguaçu e não tinha conversa! Dali para onde ninguém informava.
           Em Santa Helena a família Cinecatti foi surpreendida com a chegada soldados do exército. Não vieram somente em sua propriedade, batiam de porta em porta, ninguém era deixado de lado.
           A ordem era uma só: juntar todos os colonos “italianos” e concentrá-los no porto Sol de Maio. Dali deveriam aguardar o próximo vapor com destino a Foz do Iguaçu. Muitos se rebelaram, alegando que não tinham condições de embarcar tão somente com as roupas do corpo. Precisavam de mais tempo para arrumar suas coisas, saldar suas dívidas, vender suas criações e os produtos excedentes de suas lavouras. O exército consentiu em dar-lhes um pequeno prazo de dez dias, mas manteve-os sob vigilância.

Aquilo que puderam levar levaram; aquilo que puderam vender venderam; aquilo que puderam pagar pagaram; inclusive muitos não puderam terminar de pagar as terras para a Companhia Espéria (THOMÉ, Izalino, depoimento, 1986).

           Assim, cumprindo determinação do Ministério da Guerra, os colonos imigrantes que não dominavam a língua portuguesa foram reunidos na cidade de Foz do Iguaçu para depois seguirem viagem para os locais onde deveriam permanecer enquanto durassem as hostilidades na Europa.
           Francesco ficou assustado com o que acontecia. Era homem feito, já acostumado com as duras lidas da roça. Perdera a mãe, vítima de malária, há quatro anos e o pai havia se casado  novamente.
           Impotente, ficava a observar seu pai correr de um lado para outro, perdido, sem saber o que fazer. A terra ainda não estava paga. Tinham milho plantado, mas ainda não estava no ponto de ser colhido. E o que dizer das poucas galinhas, alguns porcos, duas vacas leiteiras e até cachorro, o que iriam fazer? Tinham que vender, mas vender para quem? Só em Foz ou Guaíra poderiam achar algum comprador, mas a viagem era longa e curto era o tempo que tinham antes de irem embora. A solução foi entregar tudo aos cuidados de um amigo da família, brasileiro. E foi o que fizeram.
            Desnecessário dizer que entre toda aquela gente reinava tremenda insatisfação, misturada com receios variados do que viria pela frente. Muitas eram as dúvidas. Para onde iriam? Como ficariam suas propriedades e todos os seus bens que ficaram para trás, em Santa Helena e região. Anos de trabalho duro, dificuldades diárias e de isolamento seriam simplesmente descartados? Quem os defenderia? Eram perguntas que naquele momento não tinham resposta. No mínimo teriam que esperar a guerra acabar e ela parecia que ainda iria demorar muito tempo, mesmo porque em 1942 o Eixo ainda se encontrava militarmente em vantagem em todas as frentes de batalha.
           As autoridades getulistas não haviam perdido tempo e as áreas de concentração haviam sido previamente escolhidas pelo governo e estavam localizadas nos territórios dos atuais municípios de Pitanga e Manoel Ribas, na região central do Paraná, logicamente distantes mais de 100 quilômetros da faixa de fronteira.

[...] levaram 30 dias e 30 noites de Foz do Iguaçu a Pitanga [...] eles foram de carroça de boi, comendo apepu e pinhão, dormiam debaixo da carroça (GALLO, entrevista gravada, 1987).

           A saída forçada dos colonos italianos de Santa Helena teve sérias consequências para a Companhia Espéria. Praticamente tudo que existia em seu projeto colonizador foi abandonado, entregue à própria sorte. O porto Sol de Maio virou um lugar fantasma. Suas instalações, entregues aos sabores do tempo, foram se deteriorando com o passar dos meses. Pela colônia adentro o mesmo acontecia com as casas dos colonos, suas lavouras e equipamentos.

Então, isso ficou tudo abandonado, aquelas lavouras, casas. Todo mundo era contrário com o que aconteceu, mas ninguém se manifestava porque estavam numa situação tão ruim, tão delicada, que ninguém podia se manifestar (THOMÉ, entrevista gravada, 1987).
          
           Imperava a lei do silêncio. Os meses foram passando e nenhuma notícia sobre os colonos italianos que foram para Pitanga ou Manoel Ribas chegava na região. Em Foz do Iguaçu, no Batalhão de Fronteira, pouco se falava a respeito. O exército informava tão somente que eles estavam todos juntos e estavam sendo muito bem tratados. Diziam ainda que tão logo terminasse a guerra eles retornariam.
           O que ficou bem claro é que a retirada dos colonos da área de fronteira foi seguida de outras medidas levadas a efeito também contra os descendentes de italianos que se encontravam estabelecidos no Oeste paranaense. Pessoas que mesmo falando fluentemente o português, cujos pais haviam emigrado para o Brasil desde o final do século XIX não tiveram vida fácil naqueles anos de guerra mundial.
           Eram tidos como suspeitos e recebiam vigilância constante das autoridades policiais. Não podiam comunicar-se tão somente em português e, é claro, não podiam receber visitas de amigos ou familiares que foram transferidos da área de fronteira. Além disso, quanto tivessem a necessidade de se ausentar de seus locais de moradia tinham necessariamente que comunicar o fato ao destacamento sediado em Santa Helena, sob pena de serem presos.

Os policiais espionavam, perseguiam, porque dentro de casa a linguagem era estrangeira [...] foram muito perseguidos por causa disso (GALLO, entrevista gravada, 1987).

           Mesmo os cultos religiosos tinham que ser celebrados em português e nos bailes ou outras manifestações festivas familiares ou da comunidade não era permitido tocar ou cantar músicas italianas. O cerco era completo.
           A vigilância aos que ficaram ganhava reforço com a participação de delatores, residentes na região. Gente que não tinha escrúpulos em entregar seus próprios vizinhos. Assim agiam motivados pelos mais variados interesses, desde um pseudo-nacionalismo, vingança ou algum interesse pecuniário qualquer.
           A ideia central era refrear todo tipo de manifestação cultural que não fosse genuinamente nacional. As tentativas de nacionalização da fronteira ocidental pretendida e colocadas em prática desde a revolução de1930 e a “Marcha para o Oeste” atingiram, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o seu ponto culminante (COLODEL, 1988, p.213). O tema sempre batido da segurança nacional era agora caso de polícia.
           Foram anos difíceis aqueles.
           A Companhia Espéria estava com a sua concessão revogada desde 1934. Havia entrado na justiça e o processo ainda não havia sido julgado, mas chances de sair vitoriosa nesse embate jurídico eram remotas. Em agosto de 1942 veio a declaração de guerra contra o Eixo e os colonos italianos que haviam se fixado em suas terras foram obrigados a deixar a região. As dívidas por eles contraídas com a compra de terras não estavam sendo quitadas e provavelmente nunca o seriam. Os lucros com os armazéns em Porto Sol de Maio e Santa Helena caíram lá embaixo pela falta de clientela. A fiscalização alfandegária havia se tornado muito mais rigorosa e as remessas contrabandeadas de madeira e erva-mate via rio Paraná cessaram em quase sua totalidade. Finalmente, como golpe de misericórdia, aconteceu que para saldar suas dívidas a companhia havia vendido seu patrimônio e milhares de ações foram emitidas a preço ilusório. Quase certo que a Espéria nunca mais se ergueria.
           Após seis anos de conflito encerrou em 1945 aquela que foi a maior guerra da história da humanidade. Os países do Eixo foram absolutamente derrotados e praticamente destruídos.
           E os colonos italianos voltaram? O que aconteceu com eles? A historiografia regional ainda não realizou pesquisas mais aprofundadas a esse respeito. Sabe-se pelos depoimentos colhidos que uma parte deles voltou, após mais de dois anos de ausência. Outros acharam por bem nunca mais retornar, achando por bem recomeçar a vida em outro lugar. Uma parcela fixou residência em Pitanga ou Manoel Ribas, outros se mudaram para Santa Catariana, para São Paulo, para Curitiba ou mesmo para a Argentina.
           Após o término da Segunda Guerra Mundial o Governo Federal determinou a liberação dos bens apreendidos da Companhia Espéria. A empresa retornou à legalidade e reiniciou a venda de lotes no Oeste paranaense para cidadãos brasileiros.
           Como o governo do Estado do Paraná havia apreendido judicialmente todos os bens da companhia houve com essa nova comercialização de ações, um debate que passou a se desenvolver no campo da legitimidade do direito aplicado. O futuro da companhia seria decidido nos tribunais.

Tomaram parte nessas discussões o Governo do Estado, o Governo Federal e os n ovos proprietários das ações da Espéria. Em não se concretizando um acordo entre as partes, deliberou-se que o caso fosse levado à resolução do Supremo Tribunal Federal, no Rio de Janeiro. A decisão dessa instância superior, que procurou resguardar o direito de propriedade dos acionistas, teve como consequência o acirramento das dissensões entre o Governo do Estado e a Espéria. O caso permaneceu sob pendência até a década de 1950, quando foi definitivamente resolvido com a saída da Companhia Espéria que transacionou com o estado o restante dos seus títulos de propriedade (COLODEL, 1988, p. 209).


           Antoni Cinecatti, sua mulher Rosa, Francesco e seus quatro irmãos voltaram para Santa Helena. Fizeram a viagem para Foz do Iguaçu embarcados num caminhão Ford com mais duas famílias. Viagem desconfortável, longa, cheia de ansiedade e reflexões. Em Santa Helena, assim como outros, encontraram a propriedade e a lavoura completamente abandonadas. O cenário era desolador. Anos que se perderam. A guerra não havia sido boa para o lugarejo e nem a boa recepção oferecida pelos vizinhos e amigos foi suficiente para lhes garantir ânimo novo. Não se entregaram de pronto, retornaram à luta, mas lá no fundo bem sabiam que o sonho de fazer a vida no Oeste do Paraná havia sido desfeito aquela tarde quando foram embarcados com destino a Foz do Iguaçu e depois Pitanga. Antoni se culpava por ter se fiado na conversa daquele corretor de imóveis da Companhia Espéria, mas não podia voltar ao passado para mudar o presente.
           Nos dias seguintes tentaram reaver os animais que haviam deixado. Mais uma decepção. O tal amigo fora embora há mais de um ano e antes de partir vendera os animais para um comerciante de Foz do Iguaçu. O comentário era o de que ele retonara para São Paulo, mas ninguém sabia ao certo. Foi demais.
           Reunião de família e a decisão de recomeçar, novamente recomeçar. Mas onde?
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REFERÊNCIAS

COLODEL, José Augusto. Obrages & companhias colonizadoras. Santa Helena na história do Oeste paranaense até 1960. Cascavel, Assoeste, 1988.

YOKOO, Edson Noriyuki. Gênese do processo de apropriação das terras, o caso das companhias ferroviárias e dos ervateiros no Oeste paranaense. Ponta Grossa, Fundação Araucária, 2010.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro, Lisboa: Difel e Bertrand Brasil, 1989.

ALBUQUERQUE JÚNIOR. A Invenção do Nordeste e outras artes. 1. ed. São Paulo/Recife: Cortez/Massangana, 1999. v. 2000. 340 p.

SERRA, Elpídio. Processos de ocupação e a luta pela terra agrícola no Paraná. Rio Claro : UNESP, 1991. Tese de Doutoramento



[1] Pelo Brasil afora, a partir de 1942, aproximadamente 3 mil pessoas de origem alemã, italiana e japonesa foram encarceradas em dez campos de concentração. Eis sua localização: Daltro Filho, no Rio Grande do Sul; Trindade, em Santa Catariana; Presídio de Curitiba, no Paraná; Guaratinguetá, Pirassununga, Pindamonhangaba e Ribeirão Preto, em São Paulo; Pouso Alegre, em Minas Gerais, Niterói, no Rio de Janeiro, Chã de Estevam, em Pernambuco e, finalmente, Tomé-Açu, no Pará.
Importante que se diga que esse período da história brasileira nunca foi incluso nos livros didáticos porque, até 1996, era confidencial. O governo permitia apenas o acesso parcial aos dados. Os arquivos oficiais foram lacrados sob uma lei que proibia consultas ou pesquisas por 50 anos. Em 1988, o prazo foi diminuído para 30 anos.
Muitas outras medidas de cerceamento à liberdade foram tomadas contra os estrangeiros que imigraram ao Brasil. A proibição de rádios, máquinas fotográficas, livros e falar o italiano, o alemão e o japonês era comum e sua desobediência considerada criminosa.
Tais campos de internamento foram criados de forma variada nos Estados brasileiros. Em colônias penais agrícolas, em asilos, em hospitais e cadeias. Os imigrantes tiveram variadas formas de aprisionamento. A legislação da época era estabelecida pelos próprios Estados, diante de suas possibilidades carcerárias.

quinta-feira, 3 de maio de 2012


 Companhia Paranaense de Colonização Espéria:
Italianos da gema na fronteira oeste.

Parte 2

           Em 1912 foi extinta a Colônia Militar de Foz do Iguaçu, passando a região a integrar o território de Guarapuava. Já a criação do município de Foz do Iguaçu ocorreu em 1914, pela Lei Estadual nº. 383, no território onde anteriormente existia a referida Colônia Militar.
           A bem da verdade deve ser dito que as benesses governamentais começaram ainda no alvorecer do século XX com a promulgação do Decreto nº 4, de 16 de março de 1901. Esse dispositivo permitiu ao governo paranaense alienar enormes extensões de terras devolutas, situadas nos vales dos rios Piquiri, Paraná e Iguaçu, entregando-as aos obrageros ingleses e argentinos.
           Tais concessões encontravam respaldo na Constituição Federal de 1891, a qual em seu artigo 64 explicitava que os estados podiam gerir autonomamente em seus territórios sobre minas e terras devolutas. O caminho estava aberto para as negociações e negociatas que viriam acontecer nos anos seguintes.
           Deu no que deu. O governo Estadual fez concessões ou simplesmente vendeu enormes glebas de terras a baixos preços, sem levar em conta a nacionalidade do comprador.
           A condição imposta pelos mandatários do poder executivo paranaense para os ervateiros atuar na região era de no mínimo dar início a algum núcleo de povoamento e a construção de picadas, geralmente ligando os portos situados no médio e alto curso do rio Paraná em direção a algum ponto no interior das florestas. O povoamento da região estava em pauta, mas era quase que letra morta.

No entanto, a Constituição de 1891, no artigo 2 discrimina as terras públicas de responsabilidade da esfera Federal: “Caberia á união somente a porção do território  que for indispensável para as defesas das fronteiras, fortificações, construções militares e estradas de ferro federais” (Constituição de 1891). Desta forma, ficam inventariadas as terras de domínio Federal e as de competência Estadual. Assim, o governo paranaense, em conformidade com a Lei Estadual de nº 68, de 20 de dezembro de 1892, e, combinado com o Decreto Estadual 1-A, de 08 de abril de 1893, passam a iniciar os trabalhos de cadastramento das terras devolutas existentes em seu território, sobretudo as situadas em regiões cobertas por florestas no interior com objetivos explícitos de iniciar a colonização oficial e/ou empresarial em regiões despovoadas do interior paranaense (YOKOO, 2011, p.2).

           Impõe-se salientar um aspecto importante nessa questão tão abrangente, que é das concessões de terras devolutas (devolvidas). Acontece que o governo estadual no período posterior à Proclamação da República não possuía recursos financeiros para dotar as regiões fronteiriças de qualquer infraestrutura mínima necessária. Não tinha dinheiro para a execução das obras públicas indispensáveis (estradas, ferrovias, pontes, etc.), mas tinha grandes áreas de terras. E terra é e era dinheiro em caixa. O governo achava que ganhava com o negócio, mas os obrageros ganhavam mais, pois com a exploração predatória das nossas reservas vegetais, ricas e abundantes, garantiam enormes lucros.
           E a nossa floresta tropical e subtropical estava repleta de pinheiros, cedro, cabriúva, ipê rosa, amarelo, óleo pardo, entre outros de menor valor comercial. Isso tudo sem contar que haviam pontos densamente ocupados por ervais nativos.
           E muita gente se interessou nas terras devolutas disponíveis – leia-se empresas estrangeiras. Das obrages legais, ou seja, das mais de uma dezena que adquiriram terras do governo paranaense, incluíam-se as de Domingos Barthe, Nuñez y Gibaja, Julio Tomás Alica, Compañia de Maderas del Alto Paraná, Petry e Meyer & Azambuja, dentre outras.
           Pois é, o Oeste paranaense era mesmo um mundo de obrages e obrageros. E teria continuado assim se não fosse seu território caminho e pouso para as tropas revolucionárias paulistas e gaúchas em 1924/1925. Contingente militar que mais tarde, unido, ficou conhecido mundialmente como “Coluna Prestes”. Isso foi após sua extraordinária peregrinação, concluída em 1927 na Bolívia, tendo percorrido mais de 30 mil quilômetros.
           Passou a Coluna com grande repercussão e no ar o alerta de abandono da região. Alerta feito e ouvido pelos mandatários advindos com a chamada Revolução de 1930. Com Getúlio Vargas, gaúchos no poder. Pregou-se a nacionalização da fronteira, insistiu-se na “Marcha para o Oeste”, falou-se de povoamento efetivo e na criação de colônias e loteamentos. No final das contas muito se disse e muito pouco se fez durante a década de 1930 até meados da seguinte. Nesse intervalo temporal a Segunda Guerra Mundial e suas repercussões.
           Seria injusto dizer que o governo Vargas foi omisso quanto à presença obragera no Oeste do Paraná. Na verdade não foi.

Getúlio Vargas, logo após assumir o governo, pela Revolução de 1930, com amplo apoio dos militares, muitos deles tendo participado nos combates à Coluna Prestes e outros do movimento tenentista, conhecendo a situação das fronteiras brasileiras no Oeste do Paraná, assinou o Decreto 19.842, de 12 de dezembro de 1930, que adotava medidas drásticas do ponto de vista nacionalista. Este decreto exigia que as empresas tivessem, em seus quadros de empregados, no mínimo, dois terços de trabalhadores brasileiros (SPERANÇA, 1992, p.194), dificultando o ingresso e a permanência de estrangeiros, no caso paraguaios e argentinos, nas terras brasileiras e impondo novas dificuldades às empresas estrangeiras (GREGORY, 2002, p.91).


      No Paraná, o interventor General Mário Alves Monteiro Tourinho (1871-1964), nascido em Antonina e revolucionário de primeira hora, foi colocado à testa do governo estadual por Getúlio. Como interventor federal resolveu tomar medidas imediatas no sentido de “nacionalizar” a fronteira oeste.

           Mário Tourinho ficou no poder menos de um ano, sendo substituído em 1931 por Manoel Ribas, o famoso Maneco Facão, que permaneceu no comando das coisas paranaenses até 1945. E a saída repentina do general Tourinho deu-se principalmente em razão do mesmo ter mandado baixar, sem a anuência do poderoso Getúlio Vargas, o tão famoso Decreto nº. 300, o qual procurava sanar a problemática questão envolvendo a concessão de terras no Oeste do Paraná.

[...] este decreto [...] retirava de forma drástica gigantescas extensões de terras eu haviam sido tituladas a grupos econômicos, inclusive estrangeiros, envolvidos sobretudo na construção da estrada de ferro São Paulo - Rio Grande (WACHOWICZ, 1982, p.145).
          
           Retomadas as terras desviadas, por força do Decreto 300, o interventor Mario Tourinho editou o Decreto 800, estabelecendo que doravante as áreas consideradas devolutas só pudessem ser adquiridas a título de compra “pelos que nela se comprometessem a morar a estabelecer cultura efetiva”. Pelo mesmo Decreto 800, o interventor define a colonização como processo básico de acesso à terra,que passaria a ser executado pelo próprio Estado e em parceria iniciativa privada (SERRA, 2009, p.5)
           Nos anos anteriores à revolução, tentando timidamente fomentar o povoamento, o governo estadual autorizou a entrada de algumas companhias de colonização estrangeiras. Estavam instaladas legalmente desde a década de 1920. Exemplo disso foi a Companhia Paranaense de Colonização Espéria Ltda., presente na região de Santa Helena desde o ano de 1926.
           Todavia, a movimentação fundiária que levou a Companhia Espéria adquirir suas glebas de terras remonta alguns anos antes, senão vejamos.
           Pelas Leis nº 1.147, de 26 de março de 1912, e pela Lei nº 1642, de 05 de maio de 1916, o Governo do Estado do Paraná garantiu a título de concessão a José Petry, Hans Meyer, Alberto Meyer e Antonio Bittencourt de Azambuja, 50.000 hectares de terras devolutas para cada um ao preço de 4$500 o hectare. Essas terras estavam localizadas próximas nas proximidades da atual cidade de Santa Helena.
           Esses empresários se articulam rapidamente – se é que não haviam se reunido antes, o que é bem provável - e semanas depois criam a empresa Petry, Meyer & Azambuja, apoiados em empréstimos feitos junto ao Banco Francês-Italiano (WACHOWICZ, 1987, p. 156).

Deste modo, esta sociedade recebe do governo o título provisório das terras de forma unificada em 200.000 hectares. Em 27 de abril de 1920 é admitido na sociedade o cidadão Roberto Stüber, que incorpora aos domínios territoriais da sociedade de mais 50.000 hectares, concessão de terras para colonização, adquirida do governo paranaense. Assim, a empresa passa a controlar 246.100 hectares, já deduzida a faixa de terrenos de domínio da marinha à margem do rio Paraná. Desse modo, com a entrada do novo sócio é alterada a razão social da empresa que passa a denominar: Meyer, Annes & Cia, com sede em Curitiba (WACHOWICZ, 1987, p. 160).

              A área foi então demarcada e subdividida em 628 lotes, medindo cada um deles em torno de 25 hectares. A área total para fins de colonização foi de 15.700 hectares.
           Feito isso o passo seguinte foi no sentido de arregimentar diversos corretores de terras e iniciar a comercialização desses lotes. A preferência foi dada para colonos de origem italiana e descendentes radicados no interior de São Paulo. Gente que estava descontente com os resquícios do sistema de parceria ainda vigentes naquele Estado.
Continua ...