quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

E pelas ruas o carro de som anunciava:
hoje tem cinema? Tem sim senhor!
Quando a TV ainda era novidade as telonas dominavam.


            E olha que já faz tempo! Tempo em que filme do Mazzaropi era sucesso absoluto de público, tempo em que televisor quase não existia aqui por estas bandas. A primeira Copa do Mundo que a turma viu pela tevê foi a de 74, direto da Alemanha - e não foi muita gente! Por falar em TV, a marca mais popular era a Colorado RQ, apresentando um já consagrado Rei Pelé, sorridente, como garoto-propaganda.
            O que se ouvia mesmo era o rádio, rádio de válvula, que na falta de energia elétrica era alimentado por bateria de automóvel. Chiava e zunia, parecendo caixão de abelhas. O radinho a pilha ainda era luxo, muito caro, difícil de encontrar. A emissora regional preferida, era a Rádio Colméia, de Cascavel. Em casa, quem tinha dinheiro tinha na sala a sua vitrola com barzinho embutido e tudo - e depois a então moderníssima eletrola da General Eletric.
            Eram os anos sessenta. Época do iê-iê-iê, dos cabeludos, dos Beatles, do maio de 68 em Paris, da Cuba Libre, de Fidel Castro, da corrida espacial entre russos e americanos, da nova capital Brasília e do Golpe Militar de 64, com os seus imperdoáveis “anos de chumbo”.
             Enquanto tudo isso acontecia, em Santa Helena e em outras cidades do Oeste do Paraná a moçada tinha que dar duro pra encontrar algum divertimento. O trabalho na roça, ainda no muque, não era fácil e o lazer ficava reservado para os finais de semana ou quando tinha festa na paróquia. As tão tradicionais caçadas e pescarias também eram motivos para a reunião de alguns companheiros, pois o bicharedo e peixe graúdo era o que não faltava, principalmente nas águas agitadas do Paranazão!
            Tinha baile também e os primeiros arrasta-pés que aconteceram na cidade de Santa Helena foram lá na antiga oficina do saudoso Argemiro Kozerski, por volta de 1959. Mais tarde eles passaram a ser feitos no Hotel Webber, abrilhantados por músicos como o Arno Nagel, Ervino Dietrich, Arlindo Cattani, Arnildo Bussler, Nestor Fockink e o Thauhat. O repertório, variado, incluía a valsa, xote, vaneirão, baladas, marchinhas e também a polca.
            A coisa melhorou muito a partir de 1962 quando foi inaugurado o Salão Meyer, sobre o qual falaremos em outra oportunidade.
            Quem também dava ares de músico era o Luiz Remonti. A bem da verdade, o Remonti fez de tudo um pouco. Esse gaúcho de Lageado chegou a Santa Helena em 1959 e, como era costume, se hospedou no Hotel Webber. Ali começou a exercer a função de dentista, ou melhor, de prático; profissão que aprendeu em Santa Catarina. Ah! Ele ainda foi sapateiro. Hoje é comerciante.
             Como não era homem de ficar acomodado, o Luiz Remonti se interessou pela fotografia. Comprou uma máquina de segunda mão e se tornou um dos primeiros fotógrafos, registrando os acontecimentos sociais e o dia a dia dos santa-helenenses. As fotografias eram reveladas no quarto de hotel, onde ele improvisou uma câmara escura.
            Mas ele queria mais. Ser fotógrafo era bom, mas podia ser melhor. Daí, da fotografia para o cinema foi só um passo.
            Decidido a montar um cinema em Santa Helena, se mandou para a cidade de Erechim com o objetivo de comprar os equipamentos necessários. A peça mais importante – e não poderia deixar de ser - foi um projetor de dezesseis milímetros. Alguns anos depois ele comprou em São Paulo equipamentos mais modernos e um projetor de trinta e cinco milímetros.
            Na cidade a novidade criava expectativa e corria de boca em boca. A primeira exibição cinematográfica aconteceu no dia 1º de novembro de 1966 na antiga sede do Clube Incas, na época localizada defronte à Usina de Conhecimento.
            Os moradores se acotovelaram para assistir, em preto e branco, a comédia “Os Três Patetas”. Nascia nesse espaço improvisado o Cine Remonti. Em 20 de novembro de 1969 foram inauguradas, na Avenida Brasil, suas novas dependências, em alvenaria. O filme de estreia foi “A Morte Comanda o Cangaço”. Em 13 de janeiro de 1972 foi exibido o primeiro filme em 35 milímetros: “El Condor”.
            Era casa cheia quase sempre. Os pipoqueiros e doceiros de plantão riam à toa. Gente de todas as idades, da cidade e do interior, era atraída pelos “bang bangs”, pelas aventuras do Tarzan e do Jim das Selvas, pelos filmes policiais e de guerra; pelas comédias e desenhos animados.
            O cine era ponto de encontro das famílias, local preferido para as “paqueras” e para casais de namorados. Quem não se lembra do alvoroço da piazada antes de começar o filme, do lanterninha sempre de olho em tudo, das broncas, do chicletes Plets, do saquinho de amendoim crocante, da Coca-cola geladinha e da fita arrebentando na parte boa do filme?
           


Prédio do Cine Remonti, antes da “reforma” em 2004. Atualmente ele pertence ao município de Santa Helena.
 


            Mas como tudo o que é bom um dia acaba, com o Cine Remonti não foi diferente. Do mesmo jeito que a floresta cedeu lugar à lavoura o cinema foi perdendo espaço para o televisor e para o videocassete, que foram inexoravelmente se popularizando.
            Não deu pra aguentar. O público foi diminuindo mês a mês. Já caíra bastante com o êxodo rural que veio com a formação do Lago de Itaipu, em 1982. A falta de espectadores e o dinheirão a ser pago pelos filmes alugados não compensavam mais. O negócio se tornou inviável.
             Assim, lamentavelmente, em 30 de novembro de 1990 foi exibido último filme da longa trajetória do Cine Remonti. O título, bem ..., ele não poderia ser mais sugestivo: “Cyborg, o Dragão do Futuro”.

2 comentários:

  1. Olá Colodel! Histórias como essa se repetiram em outras cidades do país. Relembrei com saudades. E quando o circo chegava...

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  2. Ler esta matéria me fez reviver as historias contadas pelo meu pai (Nestor Fockink) com aquele brilho saudosista nos olhos....gostei muito.

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