terça-feira, 13 de dezembro de 2011

No Oeste do Paraná os súditos da rainha
e sua Fazenda Britânia

            A tão conhecida “Fazenda Britânia” era coisa de capitalista monopolista inglês, com libra e mil réis no bolso, chapéu coco, fraque e bengala.
       Lá pelo início do século XX – e assim o foi até o término da Primeira Grande Guerra (1914-1918) - a Inglaterra ainda reinava como potência econômica hegemônica e feito polvo  espalhava seus tentáculos imperialistas mundo afora. Impunha seus produtos industrializados a bel-prazer e explorava impiedosamente as abundantes riquezas naturais em suas inúmeras colônias e em dezenas de países sob a sua tutela. Suas marinhas de guerra e mercante reinavam incontestes em todos os meridianos e a libra esterlina era o dólar da época, ditando as transações comerciais. O Obama daquela época era o primeiro-ministro inglês Lloyd George, sem armas nucleares, mas com indisfarçável e ameaçador poder de fogo.
       No que dizia respeito ao Brasil; país rico, inexplorado e de quase inesgotável manancial, a presença política britânica era dominante, intransigente até. A república para nós ainda engatinhava. A classe política e a classe militar, emergentes desde o golpe de 1889, articulavam e mesquinhavam como nos bons e áureos tempos do império.
       Já no Estado do Paraná, com sua economia voltada para a produção da erva-mate, que desde os fins do período provincial se tornara a principal fonte de renda e sustentáculo das finanças públicas, tinha pouca voz e vez nos altos escalões da República. Quem comandava o timão da economia nacional era o café, produzido em ritmo crescente na Região Sudeste.

Londres em 1907
        Foi nesse Paraná marginal às grandes decisões nacionais que no ano de 1905 um grupo de empresários ingleses adquiririu do governo brasileiro uma enorme área de terras devolutas localizadas na Região Oeste, mais precisamente na margem esquerda do rio Paraná.
       Em 1907 a “Companhia de Maderas del Alto Paraná” recebeu autorização para funcionar em território oestino. A área foi ufanisticamente batizada de “Fazenda Britânia” e o simples ancoradouro mandado construir ganhou status de “Porto Britânia”. Diga-se de passagem que essa companhia, fundada em 1902, já era proprietária de grandes fazendas em São Paulo e no Pantanal de Mato Grosso, ambas destinadas à criação de gado.
       A companhia, que tinha como testa de ferro o político iguaçuense Jorge Schimmelpfeng, nada mais era do que mera ramificação de uma empresa inglesa muito, muito maior: a The Alto Paraná Development Company Ltd., com sede na cidade de Buenos Aires.
       Quanto ao “pedacinho de terra” em questão, objeto da transação, ele tinha perto de 275 mil hectares! Sua configuração era a de um retângulo quase perfeito, sendo que da margem do Paraná avançava em linha reta quase 80 quilômetros sertão adentro! Mas não ficou por aí a avidez imobiliária inglesa. Em 1909 a Companhia de Maderas del Alto Paraná gestionou junto ao governo estadual e não foi nada difícil comprar uma área contígua à Fazenda Britânia. Esta, englobava nada menos que 22 mil hectares!
       Ledo engano quem por ventura acreditou que os capitalistas ingleses comprariam essas terras com o propósito de iniciarem um projeto colonizador no Oeste paranaense, até então praticamente despovoado. O negócio era lucrar rapidamente e mandar os dividendos para Buenos Aires e daí para Londres. E o lucro fácil enjcontrava respaldo na extração da erva-mate nativa, da madeira, erva-cidreira e até de extrato de laranja apepú. Então, dê-lhe facão, dê-lhe machado!
       Vai daí que não mexeram uma palha para o início de alguma atividade agropecuária sistemática ou para abrir estradas dentro da imensa propriedade. Para quê? Os únicos caminhos existentes eram as trihas e picadas que ligavam os locais de coleta com o Porto Britânia. A prioridade era retirar em grande quantidade o que a terra gratuitamente oferecia e ponto final.
       Para a extração da erva-mate e madeira contavam exclusivamente com mão-de-obra paraguaia.
       A porta de saída dessa exuberância vegetal amealhada era o seu atracadouro particular, o Porto Britânia. E para exportar com maior agilidade os produtos retirados de dentro da fazenda os administradores ingleses providenciaram várias melhorias em suas instalações, dotando-as de armazéns para depósito da erva-mate e mercadorias diversas, escritório central, casa de hóspedes, administração, almoxarifado, oficina, casas para os funcionários, mangueirão, horta, etc. Conta-se também que constituíram um muito bem cuidado erval com cerca de 90 mil pés de onde eram feitas inclusive experiências para a obtenção de novas variedades de erva-mate.
       Deitou e rolou por mais de trinta anos até que a decadência da tão poderosa Fazenda Britânia, cujo auge fora alcançado durante a década de 1920, tivesse início. O processo deu-se a partir de 1939 quando a Inglaterra envolveu-se diretamente na Segunda Guerra Mundial. Antes disso, suas instalações foram parcialmente vdestruídas pela passagem da Coluna Prestes em 1924, ficando abandonadas até 1930.
       Em 1942 encerrou-se finalmente a longa permanência exploratória britânica em solo paranaense. Isto se deveu em parte à queda das exportações de erva-mate para o mercado platino, ao esgotamento progressivo das reservas de madeira e também em razão da pressão e proibição do governo brasileiro quanto à presença de estrangeiros em suas fronteiras em tempos de guerra.
       A Fazenda Britânia voltou a chamar a atenção em 1945, meses após o término daquele que foi o mais sangrento conflito da história da humanidade. Os ingleses tinham interesse na venda da propriedade e quem primeiro se interessou foram homens que teriam grande importância para a história recente oestina. Seus nomes: Alfredo Paschoal Ruaro, Alberto Dalcanale, Willy Barthe e Curt Bercht. Seu empreendimento: a Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná S.A., mais conhecida como Maripá.
       Em 1946 o negócio foi fechado e a partir de então teve início uma nova etapa da colonização do Oeste paranaense. Mas, e vocês já devem saber, essa é uma outra história.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

No Oeste paranaense,
muamba e contrabando desde o tempo do mil réis!
        
Ainda nesta semana a imprensa regional repercutiu a já tão corriqueira notícia a respeito da prisão de muambeiros e contrabandistas na Ponte da Amizade, no lado brasileiro. Nada de anormal. Aliás, normal seria o fato deles não existirem. Pura ilusão. O certo é que o contrabando por estas paragens é realidade histórica. Atividade firme e forte, cujos alicerces remontam a fins do século XIX, quando por aqui aportaram nas barrancas do rio Paraná os primeiros colonos nacionais e obrageros castelhanos.
E naquela época quem comandava o lucrativo negócio do contrabando eram os comerciantes argentinos, principalmente aqueles residentes nas províncias de Corrientes e Posadas.
Antiga Aduana em Foz do Iguaçu, instalada precariamente sobre uma balsa.
O bom negócio não tinha amarras ou cordames e mesmo após a criação da Colônia Militar de Foz do Iguaçu, em 1889, o abastecimento de toda a Região Oeste do Paraná estava nas mãos de algumas casas comerciais argentinas, cada qual com o seu barco a vapor – na época uma espécie de armazém itinerante de secos e molhados, que subia e descia o Paranazão.
Época difícil, região meio que jogada às traças. Estradas, bem, elas quase não existiam. As pouquíssimas repartições públicas funcionavam precariamente, sem pessoal minimamente qualificado. Do jeito que a coisa andava o funcionário público ser designado para trabalhar no Oeste paranaense nada mais era do que motivo de infelicidade, de punição.
E para burlar o fisco dava-se um jeito, jeitinho argentino. Dentre tantos artifícios, usava-se da seguinte artimanha: quando os vapores subiam o rio Paraná, indo na direção de Guaira, nada descarregavam; quando voltavam, vendiam suas mercadorias como sendo brasileiras, sem as etiquetas argentinas. Assim o faziam com o objetivo de alegar que as ditas mercadorias haviam sido adquiridas em Guaira, estando, portanto, isentas do fisco. É bom que se diga que Guaíra era controlada pela Companhia Mate Laranjeira e, portanto, firmemente subordinada aos interesses obrageros.
Mas, convenhamos, a quem cabe o julgamento prévio para tal rotina de sonegação? O melhor mesmo é não se precipitar, avaliando o passado com os olhos do presente. O contrabando então praticado pode ser em parte justificado à medida que até a liberação do tráfego pela estrada de ferro que ligava Guaira a Porto Mendes, em 1930, quase nenhuma mercadoria nacional chegava ao Oeste paranaense, seja vindo de Curitiba ou São Paulo. Não havia interesse de parte da Companhia Mate Laranjeira, meio argentina meio brasileira, em liberar a dita estrada para que comerciantes brasileiros pudessem colocar seus produtos na região. Não era para menos, pois todos os seus parceiros comerciais na compra de erva-mate eram argentinos. E, convenhamos, seria uma tremenda estupidez contrariá-los.
O contrabando corria solto e continuou sendo praticado livremente mesmo depois que foi inaugurada a Coletoria de Rendas na cidade de Foz do Iguaçu, em 1913. Com o passar dos meses foram instalados em portos localizados na margem brasileira do rio Paraná seis postos fiscais: Santa Helena, Porto Britânia, Doze de Outubro, Artaza, Porto Mendes e Mojoli (Guaira). Em cada um deles havia um funcionário estadual residente e indigentemente remunerado.

    
       Os barcos a vapor argentinos funcionavam como verdadeiros armazéns itinerantes de secos e molhados.
Mas tais postos fiscais de pouco ou nada serviam, mesmo porque os funcionários dependiam em tudo dos obrageros, desde moradia até a alimentação. Assim sendo, faziam vistas grossas tanto para as mercadorias que eram desembarcadas nesses portos bem como as quantidades exatas de erva-mate que eram exportadas e, no papel, que ficavam sempre bem aquém da realidade. E olha que o contrabando era tão grosseiro que a alfândega de Posadas registrava de cinco a dez vezes a mais a quantidade de mate brasileiro, leia-se oestino, que chegava àquele país! Lá o fisco funcionava a contento.
Mas não era só o mate que era exportado ilegalmente. Outro produto cobiçado e visado era a madeira. Os impostos pagos eram ridículos se comparados com toda a madeira que descia o Paraná, nas conhecidas jangadas ou marombas. Para que isso acontecesse, também contava-se com a conivência das autoridades brasileiras responsáveis, a qual era notória.
Vivendo à margem desse contrabando maior, mas dependentes dos comerciantes argentinos, estavam os moradores da região, poucos e praticamente abandonados à própria sorte. Longe de tudo e de todos não podiam dar-se ao luxo de contestar nada e ninguém. Dependiam dos vapores para tudo. E isto é um fato.
  Para adquirir determinados produtos, tais como gasolina, querosene e ferramentas, por exemplo, tinham que dar uma “gorjeta” para a autoridade aduaneira em Foz do Iguaçu e também para o comandante do vapor, que desta forma se dispunha a entregar o pedido num dos portos existentes.
 
Jangada desce lentamente o rio Paraná em direção a Posadas, na Argentina.
Durante muitos anos a madeira foi contrabandeada impunemente.

 E assim foi até a segunda Guerra Mundial – o Brasil declarou guerra ao Eixo em 1942 -, quando a repressão ao contrabando, por motivos de segurança nacional, foi intensificada durante o Governo de Getúlio Vargas.
Vem daí que o contrabando não é novidade entre nós oestinos. Quase institucionalizado, hoje ganha contornos ainda mais perversos quando as portas do país encontram-se abertas para a entrada abundante de armas e drogas que abastecem bocas, narinas e os bolsos do crime organizado.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Yes, nós também tivemos o nosso far west!
Marcha para o Oeste: a fronteira guarani na mira de Getúlio Vargas

       Para quem pensa que o faroeste é coisa só de gringo montado a cavalo, revólver na cinta e metido a machão, está muito enganado.
       Quem diria, mas nós também tivemos o nosso faroeste, bem no estilo tupiniquim. Pura verdade. Acontece que o nosso só começou quase um século depois e não teve o privilégio de ser reverenciado em Cinemascop nas telas de cinema, como o foi, exaustivamente, o norte-americano. Não tivemos por aqui nenhum John Wayne, caravanas pela planície, nem o retrato caricato de apaches ou comanches aguerridos e sedentos por escalpos. Os nossos índios, pratas da casa, foram praticamente exterminados uns dois séculos antes pelos espanhóis e portugueses que por aqui perambularam à procura de mão de obra escrava. Mas que nós tivemos o nosso “para o Oeste”, isso tivemos!
       É de conhecimento que o vir-a-ser da história de que todo o Oeste paranaense ficou meio que à mercê dos interesses comerciais dos obrageros argentinos até que o gaúcho Getúlio Vargas liderou sua "revolução", em 1930. Antes disso, alguns anos antes, em 1924-1925, a tão conhecida Coluna Prestes perambulou pelas barrancas do rio Paraná e levou ao conhecimento público nacional o estado de abandono em que se encontrava a região e sua população. Uma região desnacionalizada, entregue de mão beijada aos nossos vizinhos do Prata.

A colonização sulista abre espaços.
Toledo, Vila Cristo Rei em 1946.
Fonte: Museu da Imagem e do Som


       O negócio foi que com a subida de Vargas no poder criou-se um sentimento entre os intelectuais que o acompanhavam de que era urgente que a imensa e estratégica região fronteiriça paranaense, a chamada fronteira guarani, fosse imediatamente ocupada, verdadeiramente, patrioticamente nacionalizada.
       É dessa preocupação que irá sair um dos maiores slogans do governo Vargas: a Marcha para o Oeste, o nosso far west (rumo ao oeste), o nosso faroeste!
       A cabeça pensante da dita revolução afirmava que o litoral já se encontrava demograficamente ocupado, bem ocupado aliás, e que o oeste e seus sertões estavam praticamente desabitados. Era urgente ocupá-los e, para tanto, se fazia necessária um deslocamento populacional em profundidade.
       Pregava-se que para um movimento de tamanha envergadura era mister que se encontrasse uma força coletiva, emocional, pujante, que arrebatasse corações e mentes, e que fosse capaz de movimentar milhares de pessoas rumo ao oeste longínquo.
       A inspiração foi encontrada na própria história brasileira, na epopéia do bandeirantismo, dominante nos primeiros séculos da nacionalidade brasileira. O que se almejava era a criação de um novo sentimento de fronteira. Para tanto, a Marcha para o Oeste seria o meio condutor que levaria à redescoberta dessas novas e distantes zonas de riqueza.
 
O migrante gaúcho foi a ponta de lança da Marcha para o Oeste.
Colonos dgaúchos em Santa Helena na década de 1960.
Fonte: Prefeitura Municipal

     A marcha pressupunha pioneirismo e ambicionava pioneiros. Homens de coragem, capazes de levar adiante a tarefa de sedimentação das nossas fronteiras. Foi o que se buscou e foi o que se fez durante as décadas de 1930 e 1940. Talvez venha daí a força tamanha que o termo pioneiro tem em nosso dia a dia, principalmente entre os mais idosos.
       No Paraná, com a vitória de Vargas, foi nomeado como Interventor o general Mário Tourinho, o qual tinha, dentre outras, a missão levar adiante a concretização da política da Marcha para o Oeste.
       A realidade populacional corroborava as aspirações governamentais, mesmo porque um levantamento inicial feito em 1931 apontou uma população de 10 mil habitantes na região compreendida entre Foz do Iguaçu e Guaíra. E desses somente 500 eram brasileiros! Constatou-se o abandono geral e, como era de se esperar, culpou-se os governos anteriores à revolução por esse estado de coisas. No relatório final – feito por analistas cariocas e gaúchos - chegou-se ao ponto de dizer que os paranaenses não tinham ânimo para lutar pelo que era seu e que não tendo essa gana deveriam deixar que o governo federal tomasse conta de toda essa região. Dá para se perceber que foi a partir daí que surgiu e ganhou corpo com o passar dos anos a esdrúxula idéia da criação de um território federal no Oeste paranaense e catarinense. E tanto o foi que anos depois, em 1943, foi criado o Território Federal do Iguaçu, formado com porções dos estados do Paraná e de Santa Catarina. Durou pouco o tal território, sendo extinto formalmente pela Constituição de 1946, promulgada após a derrubada do Estado Novo comandado por Getúlio Vargas desde 1937.
  
Os novos donos da terra. Migrantes rio grandenses em Nova Santa Rosa na década de 1950.
Fonte: www.novasantarosa.pr.gov.br

       A nossa marcha para o Oeste estava delineada ideologicamente, mas quem é que viria ocupar e povoar a região “abandonada”? A tarefa coube a migrantes do Rio Grande do Sul. Que não se esqueça que Getúlio era gaúcho e, como não poderia ser diferente – ou poderia? – ficou sensível aos interesses demonstrados pelos capitalistas e colonizadores rio grandenses. Nesse sentido, o Oeste catarinense e paranaense foram os espaços geográficos por onde se expandiu nos anos seguintes a fronteira agrícola sulina.
       Deu no que deu e lá pelo final da década de 1960 o nosso faroeste estava concluído. Em sua mala de garupa trouxe além do sotaque, o churrasco, o CTG, a caña e o bom chimarrão.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Esse não é de confiança!

Intrigueiro e traiçoeiro esse tal de João Moya


Olha que já faz tempo, faz quase um século. Sendo mais preciso foi em 1922. Para se ter uma referência cronológica, naquele mesmo ano foi realizada na cidade de São Paulo, mais precisamente no Teatro Municipal, a tão aclamada Semana de Arte Moderna, que afinal de contas acabaria por revolucionar o universo estético, literário e jornalístico nacional.
         Pois é, enquanto a polêmica aquarela Abopuru de Tarsila do Amaral era reverenciado e escarnado naquela tarde em Sampa, aqui na terrinha o sol era daqueles de tira pica pau do toco. Um calor de amargar, ar pesado, sufocado. Fugindo do sol escaldante e abrigadas sob uma improvisada coberta de madeira, cinco jovens mulheres proseiam enquanto sorvem tranqüilamente o seu tererê. São paraguaias que vivem no porto de Santa Helena Velha, que é o ponto terminal da obrage de Domingos Barthe. Dali é embarcada a madeira e a erva-mate que segue, via Paranazão, para a Argentina.
Animada, a prosa não passa despercebida por Juan Moya. Esse criollo, nascido em Posadas, na Argentina, trabalha a dois anos na obrage. Tem cerca de quarenta anos e carrega tatuadas no corpo visíveis marcas de uma desavença por causa de mulher. Briga de faca, daquelas de apavora qualquer um. Levou a pior e um golpe bem aplicado pelo desafeto deixou-lhe manco da perna esquerda e outro lhe gravou uma cicatriz que ia da base da orelha direita ao queixo. Agradecia mesmo assim, foi sorte não ter sido morto. Também foi sorte arrumar trabalho como o velho Barthe.
         Perambulando pelo porto e redondezas, Moya não faz serviço pesado; não trabalha no escritório, na administração e nem é cozinheiro ou pistoleiro. Seu serviço é, digamos assim, bem mais delicado. Servicinho sutil.
         Sonda durante alguns minutos e meio que arrastando a perna vai ao encontro da roda de tererê. As paraguaias logo percebem sua aproximação e logo tratam de mudar de assunto. Da prosa animada passa a prevalecer a partir de então o silêncio. Calejadas, elas descobriram na pele que o sujeitinho não é de confiança.
         Dos mensus e suas companheiras gente como Juan Montoya recebeu a apelido de “sereno”, sendo que a alcunha não tem nenhuma relação com o seu suposto perfil psicológico ou emocional. E nada tem a ver mesmo! O apelido, comum em todas as obrages instaladas no Oeste paranaense se deve ao fato de essa gente tinha como única função a prática escancarada da intriga, da mentira, da fofoca.
         Portanto, no universo exploratório das obrages, Juan Moya, assim como os outros serenos, está em seu papel. Foi contratado exatamente para isso e tem um campo fértil para disseminar o seu vasto e variado repertório de intrigas.
         Enquanto os mensus vão para a sua jornada diária de trabalho, que se inicia de madrugada e vai até a boca da noite, ele fica tipo “bendito o fruto entre as mulheres”. Isso mesmo, de homem no porto de Santa Helena, fora o pessoal da administração e o capataz que está vigilante no meio do mato, só fica ele.
         Entre a mulherada ele semeia a traição, colocando homem contra homem e mulher contra mulher. Com a fala mansa chega para Rosita e, cheio de falsos pudores, diz que se sente na obrigação de contar que seu companheiro está lhe traindo com a Conchita. Chama Antonio em separado e no pé do ouvido lhe confessa como amigo sincero que sua tão querida Maria está lhe corneando com o Chico. E assim vai, pedindo para um ficar de olho no outro, para que aquela tome cuidado com essa. Semeia intriga e colhe desconfiança e desunião. E isso lhe basta.
         Olhando com os olhos do presente fica-se a imaginar que tipo de gente era essa que nem o Juan Moya e por que fazia tal coisa? É elementar intrigado leitor, agindo como agia ele conseguia em última instância que os mensus não se unissem de jeito nenhum. Imagine só se toda aquela peonada sofrida e miserável juntasse forças e investisse contra os obrageros e colocasse por terra a rotina diária de quase servidão a qual estavam impingidos? Num piscar de olhos tomavam conta de tudo, matavam os capatazes, incendiavam, destruíam e caíam no mundo.
         Daí se vê que o sereno era uma figura premeditadamente construída, relevante, quase indispensável, nessa arena de dominantes e dominados. Sua tarefa era a manutenção do status quo vigente. Ao fomentar a discórdia controlada dava vasão às ordens de seus patrões, pois esses não tinham o menor interesse em meter a mão no bolso visando a contratação de mais seguranças.  Tinha lógica, já que qualquer obrage somente era viável se os seus lucros fossem maximizados ao extremo. Sendo assim, o desembolso com mais homens era tido como supérfluo.

         E o Juan Moya, que fim levou afinal de contas? De acordo com o que me contou o pioneiro já falecido Antonio Bortolini, ele encontrou o seu gran finale numa espelunca em Foz do Iguaçu. Não se sabe bem ao certo os motivos que culminaram com a sua morte, mas o fato é que ele teve a garganta cortada de orelha a orelha por uma navalha. O assassino? Dizem que foi uma prostituta paraguaia que atendia pelo nome de Serena! Pelo menos foi o eu me disse o velho Bortolini. Vai saber ...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

NA ENCRUZILHADA ENTRE A VIDA E A MORTE, VIDA QUE EMERGE

Senhor São Bartolomeu,
se vestiu e se calçou, seu caminho bendiou.
- Por onde vai senhor, São Beto?

- Vou em busca de Vós, Senhor.

- Tu comigo não irá.

- Tu na casa de fulano ficará.

- Na casa em que vós estiverdes não morrerá mulher de parto nem menino de abafo, nem fogo levantais. 

Paz, dom, misericórdia
.

O bom e velho relógio do tempo para seu ponteiro em 1961. O ponteiro dos segundos escolhe o local: um ranchinho de pau-a-pique onde se ouve à distância um choro estridente, reclamar típico em recém-nascidos. É vida que  emerge e exige seguir seu curso.
Imagine só, ali, no que é hoje a comunidade de Correia Porto, em Santa Helena, longe de tudo e de todos, uma nova vida desperta sob o testemunho solitário de três pares de olhos, ansiosos e alegres. Dos presentes, a única pessoa que se mantém absolutamente calma é uma jovem senhora, atarefada entre chás, panos limpos e bacias de alumínio cheias com água quente. Mulher conhecidíssima e afamada e que atende como “dona” Delfina. O sobrenome é Dillemburg. Chamada às pressas está a serviço, indispensável nessas paragens, exercendo os misteres de parteira.
Delfina é uma das muitas parteiras que emprestam seus conhecimentos em Santa Helena. Aliás, é fato que existiram parteiras em todos os municípios oestinos, atuando em todos os recantos, prestando inestimáveis serviços à coletividade.
Na tradição regional receberam também a alcunha de “curiosas” ou de “aparadoras” e seus misteres são tão antigos quanto à própria humanidade. Que se diga ainda que através da história foram perseguidas,  incompreendidas, combatidas e caluniadas. Muitas vezes consideradas ignorantes e perigosas para a mãe e à criança. Na Idade Média chegaram a ser queimadas, tidas como bruxas, nas milhares de fogueiras acesas pela Inquisição “purificadora” promovida pela Igreja Católica.
         Dona Delfina era gaúcha de nascimento e veio de muda para Santa Helena em 1958, casada com Leopoldo Edvino Dillemburg.
         Nem bem chegou e já começou a ser procurada para prestar auxílio nos primeiros partos que tiveram lugar na cidadezinha de Santa Helena e arredores. Médico e hospital não tinha! O que fazer então? Tradição é tradição e a solução encontrada pelos moradores era apelar para as parteiras. Assim sendo, a presença da dona Delfina era como uma bênção para aquela gente que vivia quase que completamente isolada no novo núcleo colonial.
         É bom que se diga que Delfina não era marinheira de primeira viagem no delicado ofício de parteira. A função – ou seria vocação? - ela iniciou alguns anos antes ainda lá no Rio Grande do Sul, quando deu assistência e observou de pertinho parteiras já bem calejadas suarem para trazer ao mundo dezenas de crianças. Depois de auxiliar em tantos partos, confiante, começou a trabalhar por conta própria, e não parou mais. Era vocação mesmo!
         Na Santa Helena da década de 1960, quando era chamada para atender alguma senhora prestes a ganhar neném, era obrigada a recorrer ao jipe da Colonizadora Madalozzo. Ajeitava o motorista, pegada a estradinha e ia até onde dava para entrar. Quando o carro não podia mais avançar terminava o trecho a pé mesmo. E assim era, seja de dia, seja de noite, faça chuva ou faça sol, porque criança pra nascer não escolhe a hora e nem espera a vontade do tempo.
         E assim foi, primeiro com o jipe da Madalozzo, depois com uma charrete e mais tarde de táxi. A condução não importava, o que valia mesmo era não faltar ao compromisso, quase nunca previamente agendado. Além desses meios de transporte, as parteiras se utilizavam ainda de cavalos, peregrinando e sacolejando por estradas esburacadas e picadas intransitáveis.
         Chegando à casa procurava de imediato acalmar a “paciente”, servindo-lhe chás caseiros. Os mais comuns e eficazes eram os de laranjeira e de manjerona. Ia além. Dependendo do caso, tinha que agir como psicóloga sem diploma, tranqüilizando as gestantes que, pela inexperiência do primeiro parto, eram acometidas de crises nervosas.
         Como toda parteira que se preze, não fazia cesárea ou qualquer tipo de procedimento cirúrgico. Não se sentia habilitada. Quando a situação era por demais complicada, dona Delfina não corria riscos desnecessários para a gestante ou para o bebê. Não titubeava e os acompanhava até Marechal Cândido Rondon, onde deixava mãe e filho aos cuidados do doutor Freidrich Ruppecht Seyboth, lá no tradicionalíssimo Hospital e Maternidade Filadélfia.
         Pelo serviço que fazia dona Delfina, assim como as demais parteiras que atuaram em Santa Helena e região, não tinha o costume de cobrar nada. Às vezes, como retribuição espontânea, levava para casa, a tiracolo, um pouco de feijão, uma galinha, um leitãozinho, uma lata de banha ou outro produto qualquer. Partia e olhava para o pai aliviado, que acenava faceiro, mostrando os dentes em meio a um sorriso de orelha a orelha.
         Mas ela não foi a única.
         Muito antes da dona Delfina, outras parteiras atuavam em Santa Helena, mais especificamente em Santa Helena Velha, nas proximidades do Paranazão. Foi o caso da dona Genoéfa e da paraguaia dona Máxima.
         Vale dizer que na grande maioria das comunidades interioranas havia uma parteira que dava socorro às parturientes locais. Assim, correndo o risco da omissão pela falta de informações, podemos citar algumas outras parteiras importantes: Otacília Resner (São Clemente); Marcela Simonetti (Vila Celeste); Constantina Colombelli (Santa Helena Velha); Matilde da Rosa (Santa Helena); Teresa Andresa (Porto verde); Maria Odete e Sousa  a dona Nena (Correia Porto); nona Thomé e Aurélia Zanetti (Dois Irmãos); Joana Marcon (Santa Helena) e Tereza Jost (Santa Helena).
         A partir do final da década de 1960, quando vieram para Santa Helena os primeiros médicos e desenvolveram-se os serviços hospitalares, o trabalho das parteiras foi diminuindo.  E as bondosas senhoras, foram se retirando de cena, aquietando-se em seus cantos, com suas famílias. Deram passagem ao progresso nos serviços médicos, mas não foram esquecidas. Continuam na memória de milhares de mães.
            Missão cumprida, Delfina Dillemburg mudou-se para a cidade de Foz do Iguaçu no início da década de 1980, onde veio a falecer. Ah, quase esqueci de mencionar que ela fez quase mil partos! Precisa dizer mais?

terça-feira, 31 de maio de 2011

QUANDO O ADVOGADO DE DEFESA
ERA O TRINTA E OITO!
Posseiros, grileiros, tocaias e jagunços no Oeste paranaense

Final de tarde e um tranqüilo e já “meio alto” Clemêncio retorna para casa. Segue a cavalo, seguindo a passos lentos a picada recém-aberta. Deixara a mulher em casa e durante boa parte do dia, estivera no armazém de secos e molhados do vilarejo. Ali, além de tomar uns bons tragos com os amigos e conhecidos, brincou no carteado, comprou uma bolsa de farinha, um volta de fumo de corda, cinco litros de querosene e um pedaço de tecido do tipo “brim Coringa” para a mulher fazer roupas para os filhos.

Para muita gente que migrou para o Oeste do Paraná,
o acesso à posse da terra foi marcado por confrontos violentos.
 
Caminhava só e apesar de meio zonzo pela boa canha estava vigilante, em sentinela, pois alguns dias antes fora ameaçado. Um estranho tinha ido a seu rancho e o avisara para deixar o pedacinho de terra que adquirira por “documento” de posse. Falara que aquela terra já tinha dono e que seria muito bom para sua saúde se ele fosse acampar em outra freguesia. Como não era tolo e levou o aviso bem a sério.
Então os dias foram seguindo, marcados pelo temor de que acontecesse com ele e sua família o que já tinha acontecido com outros tantos que conhecia. Onde morava assassinatos eram coisas corriqueiras. Todo mundo sabia quem mandava, mas ninguém falava nada. Afinal de contas, em bico fechado não entra mosca!
Clemêncio vivia com medo, um medo que teve um desfecho fatal. De repente, lá pelas tantas, já bem perto de casa, aconteceu e não deu tempo nem do cavalo relinchar, deixando-o em sobreaviso. Caiu de vereda, sem dar um pio, balaço de quarenta e quatro nas costas.
         Durante as décadas de 1950 e 1960 em muitos municípios do Oeste paranaense foram tempos de desespero e insegurança. Quase todo dia vinha a notícia de que judiaram ou mataram esse ou aquele sitiante ou posseiro. Dias de confronto, de tocaia na beira da estrada, quando a silêncio da mata era subitamente quebrado pelo estampido seco de um winchester “papo amarelo”. Quem viveu naquela época jamais esquecerá. E ainda hoje todo o acontecido fica encoberto por um espesso véu de cauteloso silêncio.

Cansados das arbitrariedades de capangas e jagunços,
posseiros pegam em armas na famosa revolta do Sudoeste.
         E isso por quê? Tudo acontecia motivado pela sagrada propriedade da terra, geralmente contestada, bititulada, grilada.
         No Oeste paranaense existiam diversas áreas em permanente litígio judicial. Frentes de ocupação que atraíam milhares de pessoas, de todos os tipos; muitas das quais sem quaisquer escrúpulos. Aventureiros, desejosos em tirar proveito dessa situação de indefinição – acobertados ou não por políticos influentes e por autoridades policiais e  governamentais.
         Situação fundiária precária onde a concessão de títulos e a emissão de contratos aconteciam sem o devido amparo legal. E na defesa de seus interesses muita gente deixou de lado o bom senso e achou mais conveniente deliberar sobre o assunto usando como advogado de defesa o “trinta e oito”. Foi então que essa “gente sem direito”, cansada e acuada, resolveu dar um basta e várias revoltas pipocaram no Oeste do Paraná: Guaraniaçu (1950), Guaíra (1956), Medianeira (1961) e Três Barras (1964). Além dessas houveram violentos conflitos em Porecatu (1951) e a mais famosa, em Francisco Beltrão (1957).   
         Para quem vinha para o Oeste do Paraná de “muda” e comprava a terra diretamente das companhias colonizadoras, geralmente corria tudo bem. Outros, com pouco dinheiro, compravam o que se chamava de “direito”, ou seja, a posse. Sabiam dos riscos e ficavam à mercê de futuros aborrecimentos. Finalmente havia aqueles dispostos a tudo - desesperados e miseráveis, muitas vezes - e que abriam a sua própria posse em locais onde havia uma brecha legal. Instalavam-se em lugares onde não tinha um proprietário decididamente documentado, um proprietário de fato.
         Mas não sejamos tão severos com a posse, achando que ela sempre foi ilegal. Não foi. Até 1850, quando foi aprovada a famosa “Lei de Terras” [1] , o único meio de se apropriar da terra no Brasil era a posse.

Francisco Beltrão, 1957.


         Mas a coisa ia além. Além da posse e seus posseiros tinha a “intrusagem”. Era uma prática comum e também foi a responsável por grande agitação fundiária. E o que era ela? Nada mais do que a ocupação ou invasão ilícita de terras devolutas ou mesmos pertencentes a proprietários ausentes. E no Oeste quase todas as antigas concessões de terras que fracassaram ou se mantiveram inexploradas foram alvo de intrusos.
         Assentando-se nessas áreas, os intrusos, que na grande maioria das vezes não tinham nenhum interesse na legalização das suas posses. Estavam interessados somente na indenização, via de regra feita em dinheiro ou pelo recebimento de novas terras.
         Pior ficava quando alguns mal-intencionados penetravam à força em determinadas posses, já alienadas, mas sem ainda terem recebido os títulos definitivos de propriedade. Para sair exigiam grandes somas em dinheiro ao mesmo tempo em que instauravam um clima de permanente tensão, com o uso freqüente de ameaças, sevícias e assassinatos. Queriam mesmo era formar “grilos”.
         Taí a tal “grilagem”, notabilizada por ser mais organizada e com o envolvimento de poderosos grupos econômicos. E esse pessoal para se apoderar de uma gleba não hesitava em falsificar escrituras, recibos, contratos de compra e venda, pareceres e plantas, dentre outros. Lidando com gente humilde e sem instrução, muitas vezes tinham êxito e conturbavam completamente o meio rural.
         Para realizar o serviço tinham capangas e contratavam jagunços. Temidos, esses pistoleiros de ofício eram afamados e tinham vários crimes nas costas. Homens extremamente úteis pelas habilidades no uso de armas, coação e outros tipos de violências físicas ou morais. Não tinham passado ou futuro, viviam o presente. Gente de confiança que não tinha nome, só apelido. Quem já não ouviu falar do “Maringá”, do “Pé Torto”, do “Miúdo”, etecétera e tal.

Basta! Na base do facão a colonada vai pra rua.
         E foi esse o panorama rural oestino durante as décadas de 1950 até meados da de 1960, quando intrusos e grileiros, com o concurso de jagunços, intranqüilizavam sitiantes e posseiros menores. Esses últimos, acossados e correndo risco de vida, se obrigavam a reagir à bala, de sorte que vários capítulos da história da ocupação de terras nesta região foram escritos com fogo e sangue. Que o digam as centenas de viúvas e órfãos, que ainda se lamentam e choram pela morte estúpida de seus entes queridos.


[1] No Brasil, a Lei de Terras (lei nº 601 de 18 de setembro de 1850) foi uma das primeiras leis brasileiras, após a independência do Brasil, a dispor sobre normas do direito agrário brasileiro.Trata-se de legislação específica para a questão fundiária. Esta lei estabelecia a compra como a única forma de acesso à terra e abolia, em definitivo, o regime de sesmarias. Junto com o código comercial, é a lei mais antiga ainda em vigor no Brasil.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Puente Presidente Stroessner:

geopolítica, concreto e aço.


Foi a primeira grande obra de engenharia civil feita no Oeste paranaense. Produto acabado da visão geopolítica brasileira e que se insinuava com vistas à construção da futura Hidroelétrica de Itaipu Binacional e à primazia diplomática frente ao Paraguai.

A construção do arco a partir das duas margens do rio.

 Oficialmente tinha como objetivo uma suposta integração da tríplice fronteira com o restante do território brasileiro. Afinal de contas, o Paraguai, alvo maior dos nossos interesses diplomáticos, precisava de uma saída para o mar. A tal saída, com a construção da ponte, seria a BR-277, inaugurada em 1969, e que iria cortar o Estado do Paraná de Leste a Oeste. Junto com a ponte e a rodovia foi oferecido aos paraguaios um terminal exclusivo no porto de Paranaguá.
As elites guaranis preferiram batizá-la na época – isso bem antes da deposição do ditador, ocorrida em 1989 - com o nome de Puente Presidente Stroessner. Está situada sobre o Rio Paraná e cá entre nós, brasileiros, ficou conhecida como a “Ponte da Amizade”.
 A idéia de fazê-la remonta ao dia 29 de maio de 1956, quando os governos do Brasil e do Paraguai assinaram acordo para a construção de uma ponte sobre o Paranazão. Já no dia 14 de novembro daquele ano foi formada a Comissão Especial encarregada da execução da obra, sob a chefia do engenheiro Almyr França.
Escolhido o local, iniciaram-se os estudos e sondagens no fundo do rio, e durante as prospecções iniciais deu-se a tragédia. Em fevereiro de 1957 foi a pique o barco no qual a equipe técnica fazia sondagens no centro do leito do rio. Nesse acidente morreu afogado o engenheiro Tasso Costa Rodrigues, enquanto os outros tripulantes salvaram-se milagrosamente.
As obras avançam.

Para que não houvessem empecilhos para a navegação, a ponte teria que ter vão livre de no mínimo 18 metros acima do nível da água, mesmo nos momentos de maior cheia. Através de Informações colhidas em registros históricos e testemunhos vivos verificou-se que a maior cheia ocorreu em 1905, quando as águas subiram 30 metros acima do nível normal.
Deliberou-se então que a ponte devia ter 77 metros de altura a partir do fundo do rio e 32 metros acima do nível de água. Foi a partir dessas informações projetada uma ponte com 553 metros de comprimento, sustentada sobre um arco com vão livre de 290 metros .
O projeto é de autoria do engenheiro paulista José Rodrigues Leite de Almeida, formado pela Escola Politécnica de São Paulo.
A construção foi ganha em concorrência pública pelo consórcio formado por duas firmas: a Construtora Rabello S.A. - que construiu quase na mesma época o Palácio da Alvorada, em Brasília - e a Sociedade de Terraplanagem e Grandes Estruturas Ltda. (Sotege).
No pico das obras a construção empregou cerca de mil homens, em sua maioria residindo em casas especialmente construídas no local.
A ponte, novinha em folha.

Para o abastecimento com água potável foi perfurado um poço artesiano com 117 metros de profundidade, sendo que a água para a concretagem era captada num córrego. Foi necessário desmatar uma área de 14 hectares e realizar 139 mil metros de terraplanagem.
Para a britagem foi instalada no local da obra uma britadeira com capacidade para produzir 100 metros cúbicos de cascalho por dia. A areia era retida do próprio leito do rio e a madeira era obtida em serrarias da região. O cimento vinha de Curitiba e São Paulo. Já as estruturas e materiais metálicos eram buscados em São Paulo, Volta Redonda e Rio de janeiro.
O canteiro de obras estava ainda equipado com compressores, oficina mecânica, posto de combustível, gerador de eletricidade movido a óleo diesel, laboratório de análise e controle de materiais, escritórios, depósitos, serraria e ônibus para transporte de operários e seus filhos para as escolas da cidade.
1961. União das estruturas iniciadas em cada margem, com a habilitação de uma passarela de madeira, provisória, acompanhada de perto pelos presidentes Juscelino Kubitschek e Alfredo Stroessner.

           O grande desafio era a edificação do imenso arco de sustentação da ponte. A tarefa foi entregue à Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ). A empresa montou uma estrutura metálica especial com de 157,3 metros de comprimento, com 1.200 toneladas de aço. A estrutura saiu aos pedaços de Volta Redonda, distante. 1.700 quilômetros de Foz do Iguaçu. O transporte, feito por carretas, foi uma autêntica façanha do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem.
Inaugurada em 27 de março de 1965 pelos presidentes Castelo Branco, do Brasil e Alfredo Stroessner, do Paraguai, a Ponte da Amizade foi fator de atração de investimentos e negócios entre os dois países. Foi, por exemplo, decisiva para o surgimento de um forte comércio exportador em Foz do Iguaçu.
Para o Paraguai significou o nascimento da cidade de Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, segundo maior centro urbano daquele país. Para o Brasil o coroamento de acertada diplomacia de boa vizinhança e afirmação de um projeto geopolítico de soberania na Bacia do Prata e que se mantém até os dias de hoje.

terça-feira, 22 de março de 2011

Em leito de morte!

Navega a maromba, com assoalho de madeira de lei!

 

            Vista das belas praias do Nordeste brasileiro ela se mostra encantadora. Ei-la ali contrastando com o azul do céu, serena imagem de uma vela triangular ao sabor dos ventos. Vela de pano grosso, branco, encimado uma tosca armação de madeira. Eis a jangada, retrato da cultura regional e tema frequente para inesquecíveis composições do cancioneiro nacional, pelo menos até a década de 1960. Que o diga o saudoso mestre Dorival Caymi!

            Mas quem pensa que a jangada é privilégio só de cearense ou alagoano está redondamente enganado. Acredite, existiam jangadas no rio Paraná. Impressionantes mas elas nada tinham de encantadoras. Na Região Oeste eram conhecidas como balsas ou marombas e marcaram época quando o rio Paraná e o Oeste paranaense estavam à mercê dos interesses predatórios dos obrageros.

            As marombas reinaram até meados do século XX, quando imensas quantidades de madeira de lei eram diariamente surrupiadas da floresta oestina e levadas até as barrancas do Paranazão.


Maromba montada, pronta para seguir viagem.

Para retirar a madeira em meio à mata se fazia uso de um meio de transporte bastante peculiar e atualmente praticamente desconhecido: as alçapremas. Essas engenhocas consistiam basicamente num veículo composto de um eixo de madeira em cujas extremidades eram fixadas duas rodas de tamanho descomunal, cuja altura podia superar os dois metros. Era ali, embaixo desse eixo, que eram amarradas as toras. Conforme o tamanho da tora, cada alçaprema podia deslocar no máximo três toras puxadas por uma, duas ou até três parelhas de animais de carga.

            Chegando à barranca do grande rio as toras eram depositadas. Grandes pilhas de bojudos e vetustos toros à espera de embarque. Expostos ao tempo podiam ser encontrados exemplares magníficos de cedro, peroba, canjerana, caneleira, caviúna, sassafrás e marfim. Quando na margem estavam ajuntadas algumas centenas de toras era a hora de começar a construção da dita maromba.

Maromba em construção.

 

            O local apropriado, batizado de tombada, geralmente era uma enseada. A primeira coisa a fazer era empurrar as toras barranca abaixo, por meio de alavancas improvisadas.

            A construção de uma maromba, conhecida por embalse era trabalho duro, difícil e perigoso. Não era tarefa para moleque. Poderia demorar semanas. No embalse cada tora era previamente selecionada e tinha um lugar certo, de acordo com a sua espécie, peso, comprimento e grossura. Dia após dia, aos poucos, ia se formando uma estiva ou assoalho gradeado, dividido em áreas que se emendavam umas às outras, tanto no comprimento como na largura. Para que as toras permanecessem unidas os balseiros faziam uso de grandes travessões de madeiras atados por arames ou por um tipo especial de cipó muito resistente.

Um imenso piso gradeado.

   Enquanto se montava a maromba, que podia levar até duas mil toras, ela era presa à margem por cabos de segurança. Depois de pronta era solta e descia o Paraná ao sabor da correnteza e da habilidade dos seus balseiros; geralmente cinco ou seis peões tarimbados.

     Trabalho imprescindível e traiçoeiro era o do palanqueiro. Munido de um varejão, a palanca, utilizava-o como um tipo de remo. O varejão não era empregado diretamente na água e sim para mover determinados troncos da maromba, que eram mantidos soltos de propósito. Com os ombros o palanqueiro batia o tronco solto nos amarrados, diminuindo assim a agitação das águas e mantendo a maromba estável e na direção certa.

            No assoalho da maromba era levantado um pequeno e rústico “rancho”, que servia de abrigo para os balseiros, bagagem e mantimentos. Para dar sustento aos balseiros a comida tinha que ser forte, à base de feijão, arroz, banha, farinha, charque e a indispensável erva-mate.

O árduo trabalho da construção

  Por segurança não se viajava de noite. Ao entardecer a maromba era encostada na margem. E olha que era viagem complicada, cheia de perigos mortais. Havia o cruzo, momento de extremo perigo quando a maromba se encontrava com um vapor. O negócio era abrigar a maromba o mais rapidamente possível, até que o navio passasse e deixasse para trás as ondas que se formavam e que podiam desmontá-la, matando seus ocupantes. Pior ainda era o vento sul, que criava grandes ondas, tornando quase impossível a sua condução. Quando uma delas era apanhada pelo vento sul, via de regra era estraçalhada pelas correntezas, que então se multiplicavam. Era morte quase certa para seus tripulantes. E muitos deles pagaram com a vida, e isto é um fato.

            Depois de semanas de muitas peripécias a maromba chegava ao seu destino em terras argentinas; aportando nas serrarias de Posadas, Ibicuy, Encarnación ou Corrientes. Uma vez desmontada virava jangada morta e os balseiros recebiam finalmente seus parcos salários. Daí era só festa! Torravam o rico dinheirinho nos bares e prostíbulos. Quando estavam com os bolsos vazios voltavam como lavadores de convés ou marinheiros não qualificados nos vapores que subiam o Paraná. Viajavam em troca da passagem e da comida! Meses depois estavam de volta ... mãos e ombros calejados.

José Augusto Colodel - historiador